Aos quinze annos, a folgazã menina mudou para triste; de garrula e traquina que era, fez-se taciturna e indolente. Maneiras de senhora, conversações com pessoas de idade, onde estavam moças; entremetter-se em cousas domesticas, a que a não chamavam; desligar-se das companheiras do collegio, desdenhando a frivolidade de seus passatempos: tal foi a reforma repentina de Carlota Angela.

Alegravam-se-os paes, felicitando-se por a não terem contrariado em pequena, contra as admoestações dos parentes, entre os quaes havia um tio materno, de cuja calva ella mudava o chinó para a cabeça de um gato maltez, ou em cujos oculos ella bafejava para lh'os embaciar. Esta victima, no auge da sua angustia prognosticara aos paes de Carlota grandes dissabores, consequencias funestas da liberdade que davam á condição ferina da moça.

Depois da mudança inesperada, Norberto e Rosalia, todos os dias, diziam ao homem dos oculos:

—Vê como se enganou? Ahi a tem agora mais ajuizada e mansa que as meninas creadas debaixo da disciplina e da palmatoria...

—Veremos...—redarguiu o velho advogado—veremos quando ella tiver uma vontade opposta á vossa qual das duas é a que vence.

—Vontade opposta á nossa!—replicava Norberto—Isso havia de ter que ver! Como acha o mano que ella se possa oppor á nossa vontade?

—Facilmente; e para não ir mais longe, ides vós ter uma occasião de a experimentar.

—Qual?—atalharam ambos.

—Eu vos digo; mas, se Carlota entrar emquanto eu fallo d'ella, fica para ámanhã o que hoje vos não disser.

—Carlota está no seu quarto a ler, e não vem cá tão cêdo—disse Rosalia.—Podes fallar á vontade, Joaquim.