—A religião não é modo de vida, meu pae, é regra de vida.
—Não me dês sentenças, menina. Eu bem sei o que digo. Olha que isto aqui é para sempre. Se professares, não tens remedio, ainda que te arrependas; é d'aqui p'ra Christo.
—Pois d'aqui para Christo é que eu quero ir, meu pae. Saiba que é inutil contradizer-me. A força que eu sinto em mim para ser freira é invencivel. Não me tolha a alegria, se é alegria este santo desejo de vestir o habito. Os obstaculos podem mortificar-me, mas não mudam o meu proposito. É escusado embaraçar-me. Offereci-me ao Senhor, quando cuidei de morrer de dor, pedindo-lhe allivios; senti-os, o Senhor apiedou-se de mim; é que a misericordia divina me aceita do modo que eu mais digna me posso fazer de morrer em paz.
—Isto passa-te, Carlota. Como tens de ser noviça um anno, veremos como se te reviram as ideias.
—Pois sim, meu pae; se eu me não achar com forças de servir a Deus, dir-lh'o-hei, e sairei do convento.
—É o mais certo, e verás como te ha de parecer bom isto cá de fóra. Tu és bonita, és rica, és prendada, podes casar...
—Meu pae! por quem é não continue...
—Então que tem isso? Já cá te disseram que o casar é crime? Boa vae ella! Ainda ha seis mezes que estavas n'outras ideias...
—Se o pae faz gosto em atormentar-me, diga o que lhe parecer, que eu escuto-o; mas se me tornar a procurar, eu não venho aqui...
—Isso é modo de fallar a teu pae, Carlota! Cá dentro ensina-se a dizer isso a quem te creou, e trabalha para ti ha trinta annos? Cuidadinho commigo, menina! Eu tanto tenho de bom como de mau. Se tua tia cuida que eu sou um mono de palha, engana-se...