Gonçalo recolhia regularmente á meia noite, e achava a esposa a passear na antecamara, assoprando ás mãos, se fazia frio, e fingindo que tiritava. Perguntava-lhe mansamente o marido porque não se tinha deitado. A resposta era um descomposto aranzel de invectivas contra elle e contra as familias que lhe tomavam o marido para lhe divertirem as noites de inverno. Deixou Gonçalo de ir aos saraus. Maria das Dôres, á terceira noite de dolorosa abstenção, perguntou-lhe se elle ficava em casa para dormir ao fogão, e se casára com ella para lhe ensinar a brincar com as tenazes. Tornou-se Gonçalo{30} aos habitos antigos, e conformou-se com a dura pena de adormecer embalado pelos convicios revelhos e repisados, os mesmos sempre na phrase e na toada, a monotonia nos queixumes, a mais horrivel de quantas ha!

Este viver durou um anno, cinco annos, dez annos, vinte e quatro annos.

N'esse longo e penivel discorrer de dias concatenados, vejamos se algum incidente nos convida a variar de linguagem e a descançarmos o espirito em algum ameno remanso.

Decorridos dois annos, nasceu uma menina, que foi chamada Maria Henriqueta. Ácerca do nome, renhiram quinze dias os esposos, e sete mezes já tinham disputado, antes d'ella nascer. Claro é que argumentaram em hypothese até ao nascimento. Sendo menino queria ella que se chamasse Ruy, á semelhança de seu vigesimo segundo avô; sendo menina, Maria, porque nos ultimos quatro seculos, todas as senhoras morgadas da familia se chamavam Marias. Gonçalo desejava que fosse Heitor, sendo rapaz, e Beatriz, ou Mafalda, na outra hypothese.

Venceu a mãe, e chamou-se a menina Maria Henriqueta.

As formosuras que deu aos anjos a escola christã, vertendo á tela as côres e os feitios desenhados de bello ideal, todas tinha Maria, aos oitos annos de edade. Quem a via tão linda, e ao mesmo tempo melancolica e meiga, sem abrir nos labios infantis o sorriso de seus annos, cuidava que, alguma hora, as azas de anjo lhe{31} implumariam as espádoas, e ella as desferiria em vôo para Deus, que a mandára á terra a mostrar que bellezas povoam a bemaventurança, e como as almas lá andam vestidas.

Bem pudéra aquella pomba depôr no regaço maternal um raminho de oliveira, e alumiar n'aquella casa o primeiro dia de paz. Por ventura, a tristeza do anjo seria a magua de não ter o condão de conciliar seus paes. Póde ser que as caricias fossem poucas no berço, e á mingua d'ellas, a menina crescesse como orphanada de coração, e sedenta das meiguices, que ella andava mendigando a troco das suas.

Quantas vezes a pequenina acordava alvoroçada aos gritos de sua mãe, e ás estrondosas disputações dos dois, em competencia de phrenesis! Quantas vezes a sua ama de leite fugiu com ella para lhe reconciliar o somno, afugentado pelo medo dos berros e das visagens da mãe!

Raras vezes Gonçalo se entretinha com a filha, porque Maria das Dôres, á falta de outros peguilhos, até das muitas caricias do pae á menina tirava assumpto para bravezas de genio. Umas vezes por aperta'-la de mais; outras, por atordoa'-la com os balanços; outras, porque a fazia chorar; outras vezes, porque as cocegas a faziam rir, em risco de rebentar uma veia. O pae, afinal, largava de enfadado a creança, e saía de casa com os dentes e punhos cerrados, como se assim afogasse a serpente que lhe empeçonhava os mais innocentes gosos.

O amor de Maria das Dôres á filha tinha accessos de doudice. Acontecia arrancar-lh'a dos braços a ama, quando{32} receava que os boléos e tombos, em que a mãe a trazia do seio para o regaço, lhe tolhessem a creança. A menina ganhára á mãe uns medos taes, que dava a fugir, quando lhe podia cortar as voltas. Estes passos, algumas vezes, lhe custavam castigos, que tornavam a innocente cada vez mais assustadiça. Com o pae era differente o apego de Maria. Mal lhe ouvia a voz, corria-lhe aos braços, e saltava-lhe n'elles, como se quizesse librar-se no ar, e ir-se alando, de nuvem em nuvem, até esconder-se no céo! Se Deus te désse então as tuas azas! D'este amor ao pae, eram mais que muito frequentes os reparos de Maria das Dôres, que desfechavam em disparates de louco ciume, e declamações contra a Providencia, que nem sequer lhe deixava os afagos de sua filha. Gonçalo respondia acarinhando mais a creança, talvez com malicioso prazer; mas cara lhe saía a malicia, que ouvia improperios sem conta nem medida, e a muito custo salvava a menina da vingança da mãe, fula de raiva.