Aqui tem o mais que pude esquadrinhar, depois das informações que lhe dei. De umas e outras faça um uso conveniente, conveniente, digo, desejando eu que o seu romance tenda a escarmentar, e avisar.

Reflexionando eu muitas vezes na vida dos desgraçados personagens d'esta esquecida historia, tenho formado um juizo mal seguro ácerca da moralidade d'ella; differentes illações me combatem; mas uma ha que as outras não derribam, e é: que um pae não deve ser o supremo arbitro do coração de sua filha. Illustra'-la, guia'-la, é uma cousa; arrasta'-la pelos cabellos d'um supposto abysmo para despenha'-la n'um abysmo certo, é outra cousa.

Além d'isto reconheci a mão da Providencia carregando sobre Gonçalo Malafaya, que fizera da obediencia filial um pretexto para cobrir sua ambição de haveres. Aquelles vinculos de Freijoim e Aguas-Santas foram a causa efficiente da morte de Beatriz de Noronha, da demencia de D. Francisco de Athayde, e das mil desgraças consecutivas. Não é de desprezar este aspecto de moralidade que offerece o seu romance.

Desculpe os conselhos do seu velho amigo, se os tem n'essa conta: eu quiz apenas dizer-lhe em pouco o muito que tenho pensado nos desastres de uma infeliz familia, em cuja casa tomei chá, quando era menino. Que «FUNESTAS ESTRELLAS!»

[FIM]

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[[1]] A sr. D. Ermelinda Pinto de Magalhães, filha do dr. João Pedro Gomes de Abreu, então provedor da Misericordia e fiscal do recolhimento de S. Lazaro.

[[2]] O já citado vice-provedor da Misericordia.

[[3]] Póde ser que ainda vivam; e a ellas ou a quem as conheça chegue a reminiscencia ou a noticia d'este honroso episodio de sua mocidade.

[[4]] Confessa o auctor que é dissaborida cousa, em romance, duas pessoas, que se amam, comerem, ás suas horas, como o restante da humanidade. Abjuro os preceitos da arte em reverencia á verdade. Aqui o auctor escreve historia e não o romance.