Recolheu Gonçalo á sua camara, e n'ella passou alguns dias encerrado, sem ver a mulher. Ahi recebia as visitas, que, prevenidas pelo velho Malafaya, evitavam perguntar-lhe pela prima Maria das Dôres.

Esta, encerrada tambem no seu quarto, apenas recebia a visita do medico, e a do capellão, santo homem, que á mingua de eloquencia christã, se estava sempre benzendo, sem dar a razão de tamanha prodigalidade do signal da cruz.

N'este critico intervallo, Maria das Dôres absteve-se de governar a casa, e de transmittir suas ordens aos creados. Os negocios do governo culinario corriam sob a fiscalisação do padre, que mostrou sua especial vocação no desempenho d'elles. Almoço, jantar e ceia, ás horas, nunca faltou, bemdito seja o Senhor!

Passados dias, foi o medico portador de uma carta de Maria das Dôres a seu marido. Dizia em resumo o escripto que ella imperiosamente queria recolher-se a casa de sua familia, por já não poder supportar o flagello, que seu pae lhe apparelhara. Mais dizia, que se voltára do Douro alli, fôra causa d'essa imprudencia querer ella entregar a seu marido as chaves de suas gavetas, e as preciosidades, que elle trouxera dos seus. Posto isto, rematava dizendo que fôra sempre uma esposa digna e sem mancha; ao passo que seu marido era um homem de costumes estragados, merecedor de outra mulher, capaz de vingar-se, pagando affronta com affronta.{48}

Gonçalo leu a carta e respondeu verbalmente ao doutor:

—Que faça o que quizer. Que vá para o pae se lhe apraz; que se deixe estar, se está bem; na certeza de que, lá ou aqui, a nossa separação está resolvida para sempre.

Maria das Dôres ouviu a resposta, pediu ao medico o favor de retirar-se, saltou fóra do leito, vestiu-se em grutesco desalinho, e entrou, com furial aspecto, no quarto do marido.

Sentou-se Gonçalo no leito, como attonito da improvisa apparição.

—Que quer, prima?—gaguejou elle.

—Quero ouvi'-lo; quero ouvir da sua bocca as palavras que me disse o doutor.