—Um cavalheiro de mão erguida para sua mulher! vergonhosa cousa!—replicou D. Maria, imitando-lhe o sorriso, com vantagem de graça para ella, e de mofa para elle.
—Está, pois, demonstrado—redarguiu o pallido Malafaya—que estou aqui á mercê do punhal da prima Maria das Dôres!... Extranho destino o meu! Não basta matarem-me o coração, e o futuro?... estará escripto que o meu corpo morra ás mãos mimosas da minha esposa?{63}
—Não!—bradou ella—não em quanto o senhor, me respeitar como senhora, se me não quizer respeitar como esposa. Convença-se porém de que as affrontas de mãos hão de ser repellidas como as affrontas de palavras.
—Que quer de mim, prima Maria das Dôres?
—Quero que me respeite para que o mundo me respeite.
—A senhora é que se enxovalha, dando indecorosas scenas em publico.
—Forçada pelas suas devassidões, sr. Gonçalo! Basta de vexames! Temos cada qual seu caminho a seguir.
—Que quer dizer?
—Que o abomino, que o desprezo, que acceito hoje o divorcio, proposto ha dois annos; mas um divorcio de casal, de familia, de futuro e de tudo. Maria Henriqueta... quero-a comigo.
—A lei não lh'a concede.