D. Maria das Dôres, quando esta novidade freiratica lhe entrou por casa em bandejas de prata, não fez d'ella grande cabedal para altercar; mas, com a repetição dos mimos, e a certeza de que seu marido, em vez de entrar no convento dos congregados, torcia para o pateo das freiras bentas, bafejou-lhe o seu demonio meridiano, e ahi começou ella a averiguar quem fosse a freira perturbadora{84} da sua paz. Deram em resultado as averiguações que eram todas, excepto as entrevadas, as religiosas bemquistas de seu marido, desde a garrula noviça até á gottosa abbadessa.

Soou a temerosa trombeta da discordia, assoprada innocentemente pela communidade benedictina.

—Que andas tu a fazer por S. Bento, Gonçalo?! Deste agora em freiratico?—perguntou entre grave e ironica a sr.ª D. Maria das Dôres.

—Vou por alli espairecer algumas horas. Como sabes tenho alli parentas e velhas amigas. Na mocidade não as visitava, senão de longe a longe; agora que somos velhos todos, bom é que nos vamos despedindo na ante-camara da sepultura.

—E só procuras as velhas, primo?

—Não, prima Maria das Dôres. Ha por lá umas senhoras novas filhas de amigos velhos, que me fazem a honra de me visitar na grade.

—Coitadinhas! e são umas santas: não é verdade?

—Deus sabe se ellas são santas: eu sei apenas que são excellentes creaturas.

—Tu gostaste sempre muito das excellentes creaturas!...

E n'este ponto, a sr.ª D. Maria das Dôres fez uma longa resenha de senhoras que seu marido achára excellentes creaturas; depois, fechado o catalogo não breve nem de todo imaginativo, espirrou uma risada aspera, que feriu desagradavelmente o tympano do marido.{85}