Sentado n'uma d'essas paragens é que eu conto esta historia ás pessoas que a quizerem ouvir por complacencia com a minha velhice, e porque eu lhe assevero que este e todos os meus romances, olham a prevenir o leitor contra os infortunios procedentes da mentira do coração.{9}

[ESTRELLAS FUNESTAS]

[PRIMEIRA PARTE]

[I]

Alardeava em Lisboa suas pompas, liberalidades e desperdicios de rico morgado da provincia, Gonçalo Malafaya, primogenito e unico de uma das tres nobilissimas e mais opulentas casas do Porto.

Ha muitos annos foi isto. Ahi por 1778 é que o fidalgo portuense dava invejas aos da côrte, e a muitos namorados se atravessava, tentando a constancia das damas, e saíndo com a victoria, de que elle se lograva por mera ostentação, e nada mais que mareasse seu pundonor, ou o d'ellas.

Algumas d'essas damas levavam-lhe vantagem em pureza de sangue, e pouco o desegualavam em bens de fortuna. Admiravam-se os amigos de Gonçalo Malafaya que elle rejeitasse allianças de bom partido, vistas as condições das donas. Respondia elle que, desde menino,{10} estava o seu casamento pactuado com D. Maria das Dôres, sua prima carnal, tambem filha unica, e successora de grandes vinculos nas provincias do norte.

D. Maria das Dôres, menina de treze annos, saíra do convento de Arouca, onde fôra educada com suas tias, e vestira o magestoso habito de aia da santa rainha Mafalda, costumeira já esquecida n'aquelle mosteiro, fundado por uma rainha portugueza d'aquelle nome.

A joven aia saíu do mosteiro, com os seus bellos olhos menos levantados ao céo que inclinados ao espelho, e viu-se bonita, por comparação com as feias. Achou-se, ao mesmo tempo, na primavera da vida e na do anno.

Parece que a natureza inteira lhe estava dando uma festa. Recordar-se do seu quarto sombrio do convento, e das rabugentas admoestações e querellas de suas tias, era-lhe um retrospecto enjoativo. Seus paes andavam como a amostra'-la de casa em casa, maravilhados do juizo da morgadinha. O juizo de Maria das Dôres, a olhos extranhos, teria antes nome de mau genio, pois não era mais que uma desmesurada vaidade de sua pessoa, e altivez com que tratava mordomos, caseiros, creados, e ainda pessoas independentes de sua casa, que a não hombreavam em fidalguia. Esta prenda lhe incutiram as tias, freiras que passavam por boas, e santas mesmo seriam; mas muitas vezes estariam a pique de perderem suas almas, pela peccaminosa soberba com que disputavam primazias de linhagem com as suas conventuaes. Na cella das duas senhoras ou se falava de milagres ou de fidalguia; e era ordinario passarem da{11} linguagem, edificativa de sua visionaria crença em milagres, ao vanglorioso discurso de sua arvore genealogica, em demerito de alguma illustre religiosa bernarda, que, por sua parte, mofava da philaucía das nossas velhas senhoras, a quem Deus terá perdoado a fragilidade, por ser a mais inoffensiva de quantas ha.