Passou o anno aprazado para a vinda de Maria Henriqueta. Alvoroçou-se o pae em preparativos de jornada,{87} e D. Maria quiz acompanhá-lo, e foi, vencida curta resistencia.
Já a menina traduzia correntemente o idioma francez, e o pronunciava mais correcto que o pae. Pediu ella com muito encarecimento que a deixasse ficar mais um anno para estudar o inglez. Foi este o primeiro caso em que as opiniões dos paes se harmonisaram, negando a licença. Chorou a menina como quem fazia consistir a sua felicidade na lingua ingleza; Gonçalo, porém, tão caprichosas achou as lagrimas, que nem sequer curou de enxuga'-las com caricias.
Maria das Dôres, de si pouco fagueira, consolou-lh'as com estas e outras asperezas:
—Não se envergonha de chorar uma senhora de dezenove annos! Estás bem aviada comigo, se tens assim as lagrimas á bica para qualquer contrariedade! Ahi está o que vem a ser educação de collegio! Muito mimo, um pouco de cravo, a lingua franceza, bordar a matiz, e chorar por dá cá aquella palha! Bonita educação, não tem duvida!
—Está bom!—disse Gonçalo com mansidão.—Excedes-te nas grandes e nas pequenas cousas. Não queremos que Maria Henriqueta estude inglez: está dito tudo.
—Então achas bonita aquella choradeira!
—É uma creancice que não merece discussão. D'aqui a dias já ella se não lembra de inglez, nem mesmo sabe para que aprendeu o francez. Em summa, Maria Henriqueta, precisamos de ti, e tu hoje precisas mais de nós{88} que de mestres. Se tua mãe quizer iremos no anno que vem, se as guerras tiverem acabado, visitar as capitaes de França e de Hespanha. Estudaste nos livros; agora é bom que estudes nas magnificencias da arte e do engenho humano. Gostas do meu plano?
—Gosto do que quizerem que eu goste—respondeu carrancuda Maria Henriqueta.
O pae encarou n'ella com tristeza, e disse no mais recondito de sua alma: «Vê-se que foi creada sem mãe, mãe pelo carinho, e pelo castigo. Emquanto a teve, observou os conflictos das desordens de todas as horas, e ganhou o contagio das asperezas de genio. Depois, seguiu-se o apartamento dos naturaes afagos e das censuras mesmo doces quando castigam. Tem gosado sempre louvores mercenarios, e extranha que a contrariem seus paes...»
Em quanto Gonçalo cogitava n'estas e n'outras razões, Maria das Dôres discorria pelo theor das suas iracundas apostrophes. A filha fugiu de encara'-la, e torcia os alamares do roupão, com simulada impaciencia. Interveio, segunda vez, o pae nas desmedidas invectivas da mulher, e ficou Maria Henriqueta como vexada de se baldarem suas lagrimas, e como aterrada do seu futuro.