Continuou o conde:
—O Malafaya esteve a conversar muito tempo comigo, levou-me a casa, deu-me um bom jantar, e disse-me ao outro dia:—Deixemos completar a educação de minha filha, e depois falaremos.—Passados quasi dois annos, recebi em Monsão uma carta do Malafaya com o retrato da menina. Ó meu amigo! confesso-lhe que fiquei de bocca aberta! Era a cousa mais perfeita que cobre a roda do sol! Sabe o senhor o que é apaixonar-se um homem, não atinar mais com a cabeça? Foi o que me aconteceu a mim! Vim logo ao Porto, e disse a meu futuro sogro! «Eu quero a sua filha, mesmo sem nada, se é possivel!» Elle entrou a rir, e disse-me: «A minha filha, além da riqueza e da formosura, tem o melhor coração que Deus formou em peito de mulher.» Nunca me esqueceram estas palavras!...
Andei com o negocio de afogadilho para que o casamento se fizesse logo: mas metteram-se umas desordens tamanhas entre elle e a mulher—que é o diabo de saias segundo ouço—de modo que foram para Lisboa um por cada vez, e por lá se deixaram estar até ha pouco, que vieram para o Porto. Ha de haver quinze dias que o{109} Gonçalo me escreveu, dizendo-me que era chegado o tempo de eu ser apresentado á minha noiva, e effectuar-se o casamento. Ora aqui tem a historia com todos os pontos e virgulas. Vou casar-me. Acabam-se as rapaziadas e as viagens; mas fico senhor de uma grande casa e da mulher mais bonita da Europa... Que diz o senhor a isto?
—Digo que faz muito bem; mas se me dá licença—continuou Felippe com a mais destra e bem fingida serenidade—farei uma advertencia.
—Diga lá sem cerimonia.
—Tem o senhor conde a certeza de ser amado pela sr.ª D... Chama-se ella?
—É Maria.
—Pela sr.ª D. Maria?
—Se tenho certeza de ser amado? Eu sei cá! Ella ainda me não viu.
—Pois por isso mesmo. Que certeza tem v. ex.ª de que ella o ame, vendo-o?