[III]

Maria Henriqueta ouvira a confidencia sobresaltada de sua ama, e ficou como estupida de alegria. Eugenia, temendo que D. Maria das Dôres a encontrasse n'aquelle extranho transporte, accelerou a ida, recommendando-lhe curta demora.

Á entrada do quarto, a menina, encarando em Filippe, soltou um grito, como se fosse inadvertida, e por surpresa, a apparição. O melhor recosto para um vágado era certamente o dos braços, que se abriram a recebe'-la: mas o accidente foi instantaneo: o coração predominou o espasmo nervoso.

Estava Eugenia, a um lado, contemplando com aguados olhos a scena pathetica; porém, o medo tinha-a tolhida. Apenas o prefacio de suspiros e lagrimas iria em meio, quando a ama acudiu pedindo que dissessem depressa o que tinham a dizer, antes que a senhora perguntasse pela menina.

—Não tenhas medo, disse Maria Henriqueta, que a mãe está dirigindo o arranjo dos aposentos do conde—E,{114} voltando-se a Filippe, continuou:—Já podes imaginar quem é este infernal conde, que se espera...

Em breves termos contou o tenente as passagens que o leitor já teve a complacencia de ouvir; mas eu contei-lh'as a sorrir, e elle disse-as com tormenta desfeita de lagrimas a Maria Henriqueta.

Respondeu ella, relatando a lucta, que tivera com o pae, suavisada por ter captado em seu favor a mãe, cuja vontade era mais efficaz e prestante que a d'elle.

Passaram a combinações de futuro, prevendo hypotheses desgraçadas, como violencias de convento, maus tratos, divorcio de familia, que tudo era de antever, arvoradas as bandeiras hostis na casa.

Disse Maria que fiava muito de sua mãe, mas muito mais de si propria.

«Se a perseguição fôr tal, que me não deixem respirar—disse a menina—em tal extremo, fujo para ti, e depois... Deus se compadeça de nós, e da grandeza do nosso amor. Iremos ajoelhar a um padre para que abençoe a nossa eterna união, e assim unidos, sem vergonha do mundo, arrostaremos com todos os revéses.»