O conde foi apresentado a D. Maria das Dôres, e teve o infortunio de acarear desde logo a mais formal das antipathias. A fidalga tinha odio a homens ruivos e baixos: e o conde era baixo e ruivo. Não detestava menos os pés grandes e o simonte; e o conde, sobre ter pés grandes, aspirava com desgraciosa pretenção o aroma do simonte de uma caixa de ouro com um relevo de cupido, a desfechar dardos, de dentro de uma mouta de flôres, sobre umas pastorinhas que teciam grinaldas de rosas. Foi a caixa muito admirada da numerosa turba dos convidados, e passou ás mãos de D. Maria.
—Essa caixa, minha senhora—disse o conde—esteve já nas mãos mais lindas de França. Madame la duchesse de Choiseul honrou-me muitas vezes tomando pitadas da minha caixa.{117}
—Quem?—disse D. Maria.
—A senhora duqueza de Choiseul.
—Tem as mãos muitos lindas?—replicou a fidalga.
—Lindissimas, minha senhora.
—Mas o nariz, se toma tabaco, não póde ser muito lindo... Aqui tem a sua caixinha, com o seu Cupido e as suas pastorinhas, sr. conde. É um traste muito bonito; mas o tabaco dá-lhe ares de um deposito de immundicie com paredes de ouro.
—Que grosseria!—murmurou Gonçalo ao ouvido da senhora.
D. Maria das Dôres olhou de través o marido e disse:
—Temos historia....