Maria das Dôres, sciente dos mandados judiciarios, enviou pessoa de sua confiança a Mirandella, avisando{161} o pae de Filippe Osorio, e escrevendo a sua filha uma carta mais de indulgencia que de recriminação. «O mal está feito,—dizia-lhe ella—mas em parte considero-o sanado pelo casamento. Escondei-vos cautellosamente, em quanto a tempestade ameaça fulminar-vos com a vergonha de uma prisão. Não entreis em Portugal sem que eu vo'-lo diga; nem vos mostreis em Hespanha, porque as ordens hão de lá chegar, em mãos de quem primeiro as encheu de ouro nos cofres de teu pae, etc.»
A carta foi dar ás mãos de Maria Henriqueta, que a essa hora trajava de homem, e se chamava em Hespanha D. Luiz de Castro, irmão de D. Pedro de Castro, nomes inscriptos no passaporte de Filippe Osorio.
Estavam então em Sevilha, e tão descuidados, tão ebrios de seu amor, que nem a carta os alvoroçou. «N'esse tempo (dizem os apontamentos que tenho á vista) figurando ella de lindissimo moço, deu-lhe que fazer o amor das hespanholas, que morriam por elle; e D. Luiz de Castro sustentava os namoros, para rir com o marido, mas sem saber que saída a final lhes daria.»
Pernoitavam os ditosos esposos em Segovia, onde os anteciparam cartas da capital da provincia, recommendando os dois Castros, cavalheiros portuguezes. Convidou-os o alcaide para uma tertulia, e banqueteou-os no dia seguinte, a pedido das filhas, que eram duas, e cada qual se apaixonára do seu Castro. Praticaram-se cousas de Portugal, e caíu a proposito perguntar o alcaide aos{162} seus hospedes se conheciam um Filippe Osorio Vaz Guedes da Fonseca, desertor de cavallaria 6, que havia roubado de um mosteiro a filha de um fidalgo de linhagem, solarengo no Porto.
Disse D. Pedro de Castro que sobejamente conhecia o desertor. Contou miudamente a historia triste dos seus amores com a filha do fidalgo, e tão a enternecer o disse que as sensiveis hespanholas choraram de ouvi'-la, e o alcaide jurou que rasgaria a ordem, que tinha, de prende'-los se alguma vez reconhecesse os sympathicos fugitivos no seu districto. A intimidade cresceu tanto entre a auctoridade e os hospedes, que, decorridos alguns dias, Luiz de Castro appareceu vestido de Maria Henriqueta ao alcaide e ás filhas, que ouviram d'ella a historia, repetida com mais graça e affectuosa tristeza, dos seus amores com Filippe Osorio.
Desde essa hora, o magistrado hespanhol não velaria com mais zelo a segurança de seus filhos. Onde quer que iam, lá os antecipava a influencia do alcaide, de modo que se viam em toda a parte festejados os dois cavalheiros portuguezes, e requestados de quantas damas os abrasavam com os olhos e com o chocolate.
Segovia era o logar onde iam a desfadigar-se das excursões ás provincias, e onde as cartas do reino iam dar com elles.
Na casa do alcaide deu á luz Maria Henriqueta uma menina, findo o primeiro anno de casada. E então acabaram as excursões, e retiraram-se a uma quinta dos arrabaldes para, a salvo de suspeitas, se despirem das{163} ficções, e viverem em toda a ingenuidade de esposos e paes. Lá lhes eram assidua companhia as duas filhas do generoso hespanhol, proprietario da quinta. Alli vieram os irmãos de Mirandella visitar o irmão, e dar-lhe a boa nova de quasi esquecimento em que estava sua deserção. N'este ensejo foram elles portadores de carta de D. Maria das Dôres, que, em resumo, dizia: estarem mais benignos os ares; mais brando o coração do pae, tendo já dito que antes queria ver a filha e perdoar-lhe, que receber a noticia da morte d'ella. Accrescentava que este dizer não a auctorisava a chamar a filha; porque o pae tinha intercadencias de prostração, quando perdoava, e de cólera quando pedia vingança aos céos, e insultava os magistrados como inertes. Terminava, recommendando-lhe que se tivesse sempre em guarda, e se fiasse só de sua mãe, quando a chamasse.
Decorreram seis mezes. Sempre o céo claro sem nevoa; sempre a ventura candida e pura como o sorriso da creancinha, que dissereis vinda do céo a completar o grupo da suprema bemaventurança na terra. Para cumulo de felicidade, chegou a Segovia uma carta de D. Maria das Dôres, dizendo á filha:
«Vem, agora sem receio. Venci teu pae, com as armas da humildade. Só por amor de ti as empregaria. Perdoa-te, recebe-vos, quer-vos para filhos. Sabe que tem uma neta. Disse-lh'o eu, quando o vi tão bom! Perguntou-me estupefacto como eu o sabia. Occultei-lhe os promenores; disse-lhe em suma, que eu fôra sempre mãe. Fitou-me de um certo modo, que me incutiu{164} receios de me ter enganado: mas, em seguida, voltou á sua segunda natureza compadecida. O peor, filha, será o crime de teu marido, que o força a livrar-se, e agora as leis militares inglezas creio que são severas para desertores. Se vês que teu marido tem grandes trabalhos a vencer, antes o desterro com a liberdade; e mais ao diante valeremos mais com as leis se teu pae quizer protege'-lo etc.»