—Por que nossos paes querem que eu case comtigo. E tu por que não casaste com o Magalhães de Amarante?

Maria córou, e deu graças ao seu anjo da guarda, quando viu entre as arvores proximas um rancho de senhoras e homens que andavam em busca dos noivos.

Gonçalo apenas teve tempo de lhe dizer:

—Não te parece que a nossa união será uma grande desgraça?

A prima não respondeu; levantou-se de golpe, e foi de{22} corrida ao encontro das senhoras que traziam abadas de rosas para espalharem sobre a noiva e Gonçalo que recebeu friamente a graça.

Seria ajuizado conjecturarmos que, depois d'aquelle desamoravel colloquio dos primos, um ou ambos rompessem abertamente contra a submissão, fugindo ao abysmo, que para elles nem sequer já se escondia debaixo de flores. Ambos o estavam vendo em toda a sua profundeza. Nenhum d'elles fiava de sua indole a resignação precisa para não blasphemar contra Deus ao despedaçarem-se na queda. Nenhum acceitava a corôa do martyrio como necessaria. Maria se recusasse formalmente, seria castigada com o convento. Quem não ha-de chamar paraizo terreal a um convento, se o compara com as infernaes torturas da vida intima em união indissoluvel? Gonçalo, desobedecendo a seu pae, que punição podia temer? Dissabores domesticos, privações de recursos, a venda de seus cavallos, um guarda-roupa menos recheado de sedas e velludos, prohibição de ir a Lisboa, reclusão em alguma das quintas do Douro. Mas que monta isto, em confronto da liberdade de gastar á larga, e chamar seu ao ouro que se atira por entre as grades de um captiveiro? Que tem que a peçonha seja bebida por vaso de relevante preço? E a peçonha das uniões odiosas e odientas, tragada gotta a gotta, ha ahi morrer de mais lentas e espantosas dores, quando as victimas se não buscam refrigerio na desvergonha e no crime?

A estas perguntas a razão do homem oscilla, e cae{23} em abusões injudiciosas. Então me lembra o destino, a fatalidade e as estrellas funestas. Mas é tão avesso á minha razão dar de barato ao nada a explicação dos mysterios da vida humana, que antes quero acreditar que alguns paes infelicitam os filhos, por se acostumarem á infelicidade propria; e alguns filhos, olhando de longe para o infortunio, rebordam o ponto negro, que lá está, das cores variegadas e formosas que a imaginação nova lhes empresta. Nos primeiros annos da vida, a idéa da desgraça formamo'-la imperfeitamente. Tantos são os vagos bens que anhelamos, a tantas miragens do deserto nos fogem os olhos namorados, que nunca o absoluto infortunio, as plagas infinitas sem fonte de agua, nos parecem possiveis, nem experimentadas pelos mais famosos infelizes. Os romances dão-nos espectáculos de maxima desventura; as tragedias ensanguentam a pagina onde vertemos lagrimas; a voz publica relata supplicios da vida particular denunciados pelo gemido ou pelo escandalo. Que vale isso para imaginações juvenis? Ninguem se crê talhado para o molde das miserias excepcionaes. Além de que, tal homem que a sociedade considera desgraçado na vida intima, com sua esposa, vem ao mundo, e sorri, e folga, e aporfia em prazeres com os mais felizes! tal esposa que tem fama de martyr ou de algoz de seu marido, vem ao mundo e rejubila, e captiva os olhares, que principiam piedosos e acabam por se desviarem descrentes de um martyrio, que deixa sorrir a martyr, ou de uma crueza que tinge de amavel brandura o semblante do algoz.{24}

E assim é que a penetração de ler em almas, e ver no sorriso as lagrimas, e no gesto meigo o arremesso do tigre, só póde da'-la muita experiencia de dores proprias, muito estudar-se cada um em suas chagas e na industria com que as escondeu de alheios reparos. Isto não o faz a mocidade, não o podia fazer Gonçalo Malafaya, nem D. Maria das Dôres. No instante em que um ao outro tacitamente se disseram ou podiam dizer: «ahi estão os pulsos para as algemas; mas o coração é livre»—n'esse momento o anjo da desgraça matizou-lhe de flores a garganta do despenhadeiro, e elles acintosamente se cegaram, pedindo cada um á sua imaginação o segredo de desatar as algemas do pulso e acorrentar com ellas as dos deveres.{25}

[II]

Casaram. As exterioridades, promptas sempre a mascarar hypocritas ou a desmentir infelizes, esmeraram-se no esplendor do cortejo, nas festas incansaveis de um mez, que apenas chegou a satisfazer a ancia de folias. Era numerosa a parentella, derramada em tres provincias. Viera toda a felicitar os noivos, e nenhuma voz amorosa lhes disse em que preceito assentava a felicidade conjugal. Os emboras fundavam na certeza de se unirem duas familias, que continuavam uma varonia ininterrupta de cinco seculos. Diriam mais que já não havia medo que algum intruso viesse enxertar-se no tronco illustre dos Malafayas e Azinheiros. Os velhos iam á sala dos retratos, e affirmavam que o bispo de Leiria Lopo Azinheiro, e a Dona abbadessa de Lorvão Mafalda Azinheiro, e o governador de Mombaça Heytor Malafaya se estavam sorrindo de contestes com tal casamento. E os outros parentes iam ver a alegria dos retratos, e os retratos em verdade pareciam sorrir da inepcia da sua posteridade; porque o bispo fora um virtuoso prelado:{26} a abbadessa morrera em cheiro de santidade; e o governador de Mombaça, se não morreu santo—que o governar na India era pouco azado molde para santos—era pelo menos esperto, consoante as chronicas o descrevem.