E abraçava com arrebatada ternura a menina.
Filippe apresentou-se ao governador militar. Foi esta a branda e animadora linguagem da auctoridade:
—É forçoso que se recolha ao castello da Foz. Escuso dizer-lhe que será absolvido, porque a Regencia quer que o seja. Espero que em menos de tres mezes esteja livre. Sua esposa tem licença para viver comsigo no castello.
—Não póde ser.
—Porque não póde ser?
—Meu sogro vae litigar a validade do meu casamento, as leis mandam que minha mulher seja judicialmente depositada, até á decisão. Por conselho de minha sogra, e meu, vae minha mulher entrar no recolhimento de S. Lazaro. Ámanhã vou entregar-me á prisão.
Voltou com risonho vulto o preso a casa, e disse a Maria que estavam unidos, passados tres mezes.
D. Maria das Dôres saltou de sua carruagem á porta{176} da hospedaria, abraçou a filha e o genro, chorou de ternura beijando a neta, emprestou da sua instantanea alegria á contristada familia, e disse que o marido era contente com a resolução da filha, e fôra elle pessoalmente falar ao provedor da Misericordia para se mobilarem os melhores aposentos do recolhimento para ella. De tudo, inferia Maria das Dôres que as pazes se fariam brevemente, os desgostos a passar seriam curtos, em comparação dos futuros contentamentos.
Maria Henriqueta reanimou-se, e mais ainda quando encontrou o marido, em secreto, enxugando as lagrimas. A mulher que ama precisa ver chorar, para crear alentos. A coragem do homem que se despede parece uma offensa, ainda que o não seja; simula desamor, ainda mesmo que as lagrimas saiam do coração como gottas de ferro candente, e se derramem nas chagas do peito antes de chegarem aos olhos. A mulher amante quer, ao separar-se, levar a certeza de que deixa uma saudade, bastante a matar o coração que a ama. Isso é que lhe dá força para luctar e soffrer. A suprema desgraça é o desalento da duvida, quando a infeliz já por si não tem, contra o mundo e contra a desgraça, senão a certeza de ser amada. Por isso, Maria Henriqueta achou em si a antiga força, quando surprehendeu Filippe a chorar.
Na seguinte manhã, o preso ajoelhou aos pés de sua mulher, e disse-lhe: