Feliz pelo destino, ou desgraçado pela fatalidade, o Lucifer, despenhado d'este céo da terra, que a impiedade lhe deu, optou pelo tumulo entre duas idéas: pobreza e impotencia.

Impotente para vencer a sociedade que lhe não restituia o seu ouro, o desesperado, aborrecendo a morte tanto como a vida, crava-se um punhal, que nem elle sabe se o vinga dos homens, se o deita no tumulo, se o sacrifica á justiça de Deus.

O atheu pensára longas horas antes de erguer-se o patibulo; mas, nos seus ultimos instantes, não era philosopho: era um algoz.

A desesperação enervára-lhe o entendimento, e robustecera-lhe o braço.

O cutello, no braço do algoz, não tem nada com o espirito. Um e outro são machinas de morte.

XI

E o coronel ***, e sua esposa, e seus filhinhos eram christãos. E oravam na desgraça, e sorriam no infortunio, e esperavam.

Esperança, filha dos céos! eterno cantico dos anjos!... bemdita sejas tu.

XII

E, quantas vezes, acarinhados pelas brandas lisonjas de uma esperança, nos possuimos d'aquelle inoffensivo orgulho de felicidade, e tão perto nos persuadimos que ella vem com toda a formosura real de um bello sonho? E quando assim nos apressamos ao encontro d'essa linda chimera, gerada nas entranhas do infortunio, não será tão triste deparar-se-nos uma nova desgraça?