XXII

N'este momento, abriu-se a porta do quarto. Os que a abriram eram o pae de Alvaro, e fr. Antonio dos Anjos.

A presença do sacerdote devia augmentar o pasmo comico do conde; mas a impressão foi diversa. Este homem do grande mundo perdia muito da sua altivez sarcastica, se não tinha em redor de si um rancho que lhe applaudisse as chufas. A unica pessoa de sua confiança, n'aquelle momento, era Alvaro, mas este apostata do «grande tom» não era hoje o homem de hontem. E, por tanto, o desenvolto conde na presença do padre sentiu-se embaraçado, como devera sentir-se o padre na presença de tres cavalheiros da força moral do conde.

Frei Antonio dirigiu sua humilde saudação ao cavalheiro, que não conhecia. Alvaro apresentando-lh'o, disse:

--Tenho a honra de lhe apresentar o meu amigo conde de ***. É mais velho do que eu, mas posso dizer affoutamente que sabe menos do que eu da verdadeira sciencia.

--A verdadeira sciencia--disse o padre--é um exclusivo de Deus, e não tem academias cá na terra.

--Concordo absolutamente na negativa--disse emphaticamente o conde.

--Então em que é que concordas? perguntou Alvaro.

--Em que não se sabe nada a respeito da verdadeira sciencia.

--E em que é que não concorda, senhor?--interrompeu frei Antonio, com risonha benevolencia.