As argucias galhofeiras do conde não agradaram a algum dos ouvintes. Alvaro pareceu vexar-se d'aquella despedida, mais insultuosa que engraçada, ao padre. Este, porém, supposto que vexado, não se denunciou pelo mais ligeiro gesto de enfadamento. A coragem para receber impassivel as ironias sarcasticas da incredulidade, dera-lh'a a desgraça, e aconselhára-lh'-a a caridade.

Na ausencia do conde, Alvaro e seu pae esperavam do padre palavras resentidas; e maravilharam-se quando lhe ouviram dizer com profunda compaixão:

--O desgraçado precisa muito das orações de um justo!... Quem me déra sê-lo para que a luz do céo lhe descesse ao espirito, antes que o desalento do mundo lhe aconselhasse a religião como refugio das extremas desgraças da vida! Oh! quando isso acontecer... muito infeliz deve elle ter sido!...

Desde este momento apertaram-se os vinculos de piedade, de sympathia religiosa que prendiam Alvaro e o frade. O mancebo vira a vergonhosa retirada do seu antigo mestre de atheismo, e decidira-se de coração a favor do modesto triumpho do humilde padre. Como espirito illuminado pela fé, Alvaro precisava formar a sua razão pelos elementos de uma philosophia que Fr. Antonio lhe dissera existir, mas que não era aquella do seu amigo conde.

O estudo attencioso, reflexivo, e continuado tornou-se a vida, quasi invariavel, do educando. Uma transição, assim rapida, assentava o padre que não podia, sem intervenção divina, explicar a improvisa regeneração de um homem, que deixára no mundo mil incentivos de paixões que o não tinham enfastiado ainda.

A vergonha da virtude, que não pudera vingar n'um coração ulcerado de vicios, principiou a desabrochar flôres que enfeitavam a conversão do mancebo d'essas galas de educação, que parecem vindas do berço e herdadas dos paes. Era o imperio da religião, e unicamente da religião.

Fr. Antonio dos Anjos, vaidoso com razão da obra, cujo instrumento elle fôra, não cessava de agradecer ao Altissimo a escolha que fizera de um peccador para a conversão de outro peccador, para quem o remorso seria tardio.

XXIV

Na «grande roda», falava-se muito da conversão de Alvaro. Infelizmente, porém, esta conversão tomaram-na irrisoriamente a maior parte d'aquelles que se occupavam d'ella, por não terem um caso semelhante de que se occuparem. Os da sua plana, particularmente, pareciam vexados da religiosidade do seu antigo camarada, que tão bellas esperanças dava de correr parelhas no cynismo philosophico do conde.

Na incerteza de semelhante boato, muitos vieram procurar Alvaro, e acharam-no prompto sempre a recebe'-los; se, todavia, os seus hospedes tentavam chama'-lo ao assumpto, que ali os trouxera, Alvaro contava-lhes uma historia assim resumida: