Maria, quando a nova lhe foi dada, experimentou uma sensação, d'essas raras sensações que não hão de ter nunca na terra uma palavra fiel que as defina. Ao ver que nos labios de sua mãe estava um riso de beneplacito e contentamento, Maria sorriu tambem machinalmente, e ficou silenciosa, durante a longa conversação que se travára a este respeito.
Recolhida, comtudo, ao calado abrigo do seu quarto, ao mystico colloquio das suas tristezas com a imagem de Maria Santissima, a melindrosa menina consultava-se, com doloroso interesse, no que seria essa nuvem escura de melancolia, que viera turvar-lhe o espirito, quando ouviu dizer que Alvaro da Silveira, por cuja conversão tantas vezes ella orára, ia ser recebido como amigo no seio de sua familia.
Esta interrogação era como as consultas que nós fazemos do nosso proprio destino; era como a anciedade vã de levantarmos a cortina do nosso quadro de existencia d'aqui a annos. Maria quando uma vez escrevera uma poesia intitulada presentimento, dissera tudo quanto podia dizer, vira o futuro quanto podia ve'-lo, caminhára através da vida quanto podia caminhar; e, como se os passos lhe cançassem, parou, chorando. É que o seu poema fôra uma prophecia de lagrimas nunca represadas.
IV
A apparição de Alvaro em casa do coronel impressionou extranhamente aquella numerosa familia, cuja maior parte não se recordava de ver na sua sala um extranho.
Maria foi como sua mãe cumprimenta'-lo, e, pela hesitação em que ia, pudera julgar-se que a violentavam. O acanhamento das suas maneiras, a inflexão tremida das suas poucas palavras, denunciariam uma inculta rapariga d'aldeia, a quem por passatempo aparamentaram de vestidos senhorís. Na grande roda seria fertil assumpto de risos e gracejos.
Alvaro, por uma d'essas incoherencias da natureza humana, revelava um acanhamento quasi semelhante ao de Maria. A prevenção em que o vimos a respeito d'ella, o conceito sublime que a religião lhe ensinára a fazer das suas virtudes, e, mais que tudo, a belleza d'essa menina, que elle nunca encontrára nos bailes, nem, semelhante a ella, se recordava ter visto outra, foi por ventura tudo isto a extranha emoção que o sobresaltou e collocou, como costuma dizer-se, n'uma falsa posição.
E, demais, quem sabe se assim ficam explicados os embaraços de Alvaro?
Qual de nós não teve na vida uma situação semelhante, d'onde melhor possa ver a de Alvaro da Silveira?
Quem é o homem forte e senhor de si, quando a virtude e a formosura, illuminando a mulher de um santo prestigio, lhe fascinam os olhos da face e os da alma?