O velho Silveira chamou seu filho, e disse:
--Que tristeza é a tua, e a da tua mulher, Alvaro?
--Não falemos n'isso, meu pae. O soffrimento calado é o mais nobre, o soffrimento irremediavel é creancice expo'-lo á piedade dos outros.
--Soffrimento irremediavel!? De que soffres? Estás arrependido de casar com esta menina que adoravas tanto?! Aborreces... enfastiou-te este anjo?!
--Não me enfastiou... receio que venha a enfastiar-me... Está bom, meu pae, mudemos de pratica. Para onde vamos nós a ares este anno?
--Que modos são esses, Alvaro! Entrou outra vez em ti o demonio da perdição!? Foi, pois, uma mentira, uma impostura, uma infame astucia a tua emenda?
--Não dou motivo para semelhantes suspeitas, meu pae. O meu proceder é hoje como era ha quatro mezes. Ouvi'-lo-hei, senhor, mas v. ex.a não me accuse sem fundar a sua accusação.
--É possivel que já não ames Maria?!--replicou o pae--Em que desdiz ella do que tu e eu esperavamos, Alvaro?
--Pois eu não a amo?! O pae que quer que eu faça? Ser-me-ha preciso trazer ao collo minha mulher para o persuadir de que a amo?! Eu não sei fazer carinhos piegas... Creio que ella não dirá que a trato mal, nem a privo dos seus prazeres...
--Que prazeres! Pois a pobre menina raras vezes sae do seu quarto, raras vezes, ha quinze dias a esta parte, se encontra comtigo... que prazeres lhe dás, Alvaro? É isto o que tu planizavas quando me pediste que empenhasse ao coronel a minha palavra de honra como abono do teu procedimento para que elle te não negasse a filha? Vejo que preparas para os meus ultimos dias uma grande deshonra, e um grande remorso! Com que cara me apresentarei ao coronel logo que elle saiba os surdos padecimentos da nobre menina, que não solta um gemido queixoso! Explica-te, Alvaro; não te offendo, sequer, pedindo-te, como pae, uma explicação d'essa frieza para com ella... O que é isto?