Uma noite Venceslau entrou no seu escriptorio, e demorou-se largo tempo a passear agitadissimo. D. Julia, admirando a insolita demora, desceu á livraria, e viu sobre a banca da escripta um par de pistolas novas e um pacote de polvora e balla.
—Pistolas!—exclamou ella—isto que é?... Nunca te vi d'estas coisas!
—São hoje necessarias, minha filha—disse brandamente o deputado, desenrugando a fronte assim que viu a esposa alvoroçada.
—Para quê? tens inimigos?
—Tenho, e enormes: são os mil algozes symbolisados na palavra «despotismo». Hoje, mais do que nunca, me sinto obrigado a combatel-o. Preciso defender a felicidade que me déste. D'antes era eu um homem, que podia morrer, sem o pezar de ser chorado. Hoje, que a vida me é mais cara, mais me devo prevenir na defeza d'ella. Não te assustes, Julia...—proseguiu elle abraçando-a.—O despotismo ainda cá não metteu a garra; mas eu tenho collegas no congresso que nos estão atraiçoando, e já vão tomando nota dos que hão de apontar ás alçadas se o infante D. Miguel for acclamado absoluto. Eu hei de ser o primeiro, se antes d'isso me não poderem apunhalar traiçoeiramente. Contra os traidores é que os homens de bem se armam. Ámanhã espera-se estrondoso escandalo no congresso, onde vae debater-se{239} a recusação da rainha. Eu hei de votar pelo cumprimento da lei que a manda sahir de Portugal; mas suspeito que alguns atrabiliarios lhe vão entoar vivas. Se tamanha protervia couber na alma vendida dos deputados absolutistas, é preciso expulsal-os da camara; e, se reagirem, será forçoso que deixem a vida onde alardearam a deshonra.
—Mas que necessidade tens tu de te arriscares?—perguntou Julia.—És rico, pódes viver tranquillo; em qualquer parte do mundo achas a liberdade sem receios, e a independencia das alternativas da politica... Olha, Venceslau, deixa ficar Portugal aos que o exploram, e vamos viajar.
—Iremos forçados—disse Venceslau—; mas, por emquanto, não. Eu hasteei no congresso a bandeira mais odiada dos despotas. Se eu desertar d'entre os poucos que me seguem, o meu nome ficará infamado de covardia, e a tua riqueza será a alavanca de ouro com que eu arrazei o honroso edificiosinho que ha dez annos estou levantando. Não póde ser, minha querida Julia... O teu amor quer-me desviar d'um perigo onde a tua razão me deve aconselhar que esteja. Conciliaremos o amor com o dever. Quanto mais direitos eu for grangeando á gratidão da patria, por mais digno me hei de ter da tua estima...
—Mas eu—volveu D. Julia com meiguice—desejo que tu não penses mais na patria do que em mim, Venceslau. Não me disseste hontem que Eduardo, desde que era pae, te parecia mais meditativo...{240}
—Sim... disse.
—Pois então, lembra-te que és pae d'aqui a pouco tempo, e que a patria, se tu faltares aos teus filhos, não t'os ha de indemnisar do amor que perderam.