«Venceslau era indifferente ao processo; mas a justiça, independente de solicitações, andou tão pressurosa nos seus deveres, que em meado de janeiro—mez e meio depois do delicto—o réo foi julgado e absolvido.
Á sua entrada no tribunal fez-se um rumor de compadecido assombro. Venceslau, que então contava trinta{279} e sete annos, tinha encanecido. Os sulcos da velhice, abertos pelas lagrimas, arrugavam-lhe o rosto, cujas feições pareciam estar como atrophiadas, paradas, immoveis d'aquelle sombrio marasmo da demencia estupida e morta.
«Ao sahir do carcere, entrou na carruagem do marquez de Palmella, que então era nosso ministro em Londres, e de lá providenciára em favor do seu intelligente secretario e collaborador no ministerio dos negocios estrangeiros. Por conselho dos medicos, levamol-o para a quinta do marquez, no Lumiar, onde eu passei com elle as horas vagas do serviço militar, até fevereiro do seguinte anno de 1828, em que chegou D. Miguel.
«Estavamos em uma sala triste por tarde tenebrosa de janeiro, quando chegou padre Manoel Ferreira, e me chamou de parte, para me dizer entre soluços que a infeliz D. Julia tinha morrido, pouco depois que em confissão lhe jurára pelo futuro da sua alma, e na presença da sagrada Eucharistia, que Venceslau era o pae dos seus filhinhos.
«—E onde estão os meninos?—perguntei eu ao padre.
«—Deixei-os entregues ás suas amas, e venho saber que destino devo dar-lhes.
«—O snr. padre Manoel—disse eu—tem n'este lance a uncção religiosa que requer semelhante revelação. Revista-se de animo, e diga-lh'o, porque é inevitavel avisal-o, e não póde espaçar-se a noticia.
«O padre entrou á sala onde Venceslau, ao pé do{280} fogão, parecia amolentado n'um lethargico dormir em que passava os dias e as noites, como se o cerebro, a pouco e pouco, se estivesse repassando da narcotisação da morte.
«O padre apertou-lhe a mão, espertou-o, e quedou-se longo espaço a contemplal-o, até que Venceslau lhe disse:
«—Porque chora, padre Manoel?