O governo do Porto reintegrou-o no seu antigo posto de official maior de secretaria, cujo serviço lhe era penoso, porque o cansaço, á menor applicação, lhe abastecia as trevas do entendimento.
Levantado o cêrco foi para Lisboa, e avisou o padre Manoel, de quem, a grandes intervalos, recebia cartas em nome supposto.
O filho mais velho tinha então onze annos e o outro nove. Eram ambos educados no Collegio dos Nobres, e denotavam dotes de rara capacidade.
O padre apresentou ao official maior as contas da sua administração, dando-lhe a guardar alguns contos de reis excedentes ás despezas. Venceslau rejeitou o deposito, insistindo em declinar de si a minima interferencia na herança de seus filhos.
Indagou da existencia de D. Anna Vaz. Disse-lhe{284} o padre que o commendador era fallecido; que os credores de Eduardo Pimenta haviam penhorado as duas quintas e palacete do patrimonio da viuva, e que esta se acolhêra ao convento da Encarnação, onde vivia pobremente. Quanto aos tres filhos alguns parentes se haviam encarregado de os educar.
O governo constituido mandou pagar ao conselheiro official maior os ordenados suspensos durante a emigração. Recusou-os.
Habitava um quarto andar na rua da Rosa das Partilhas, e alimentava-se d'uma taverna que occupava os baixos da casa. E, como os remanescentes do seu ordenado abastavam para vida mais desafogada, elle enviava mensalmente uma quantia ao convento da Encarnação, mediante padre Manoel Ferreira, que não era todavia o portador da esmola. O capellão do mosteiro, adestrado por conselho do outro, dava o dinheiro a D. Anna Vaz, dizendo-lhe que uma illustre dama, que a conhecêra na abastança, lhe pedia licença para a soccorrer em tão honrada quanto penosa viuvez.
Em 1834, a cholera-morbus entrou no Collegio dos Nobres. Venceslau ordenou ao padre, administrador da casa de seus filhos, que os transferisse para o seu palacio das Amoreiras. Ao mesmo tempo, o contagio feria tambem o pae. Padre Manoel achou-o no leito, quando lhe levava nova de ser fallecido um filho. Chorou, mas enguliu o segredo nas lagrimas. O enfermo disse-lhe então serenamente:{285}
—Posso morrer; os atacados n'este predio têm morrido todos. Levo saudades dos meus filhos;... mas deixo-lh'os. Nunca lhes conte a historia de sua mãe.
E o padre a ouvil-o, e a estancar nos olhos o sangue do coração!