«Padre Manoel Ferreira morreu em 1835. Os actuaes possuidores dos grandes haveres de D. Julia de Miranda contam que o padre, depois de lhes entregar a herança, andára abraçando alguns moveis d'aquella casa onde vivera cincoenta annos, e chorára muito curvado sobre a cadeira onde costumava sentar-se D. Julia. Depois pedira que lhe déssem o leito onde haviam nascido e morrido os dous meninos, e o levou comsigo, e o queimára. Os herdeiros de D. Julia riem d'esta excentricidade. Eu vi no fundo da nobre alma do padre, a significação d'aquelle aniquilamento. As lagrimas, que solemnisaram aquelle devoto sacrificio do ancião, foram as ultimas. Foi a Odivellas, beijou os olhos apagados{290} de Venceslau, voltou para os parentes que o acolheram, e finou-se. Adeus.»


Qual foi o intuito do general Pedro da Silva quando me pediu que denominasse este romance LIVRO DE CONSOLAÇÃO?

Foi, como se me dissesse:

«Raro desgraçado haverá ahi a quem se não deparem, no seu livro, infortunios que lhe despontem os espinhos de angustias menores.»

As supremas felicidades desta vida sabe a gente gradual-as: são poucas, e ficam muito áquem do desejo. Mas as escaleiras da desgraça são tantas e tão avantajadas á fantasia das mais ardentes e requeimadas almas, que não ha medil-as, nem descer a sonda ao ultimo abysmo.

Bemdito seja Deus, que nos ha dado o consolador egoismo de ouvir muito gemido, muito desesperar, muito blasphemar de infelizes á volta de nós.

FIM.

[[1]] Memorias da vida de José Liberato Freire de Carvalho. Lisboa, 1855, pag. 94 e seguintes.

[[2]] Esta resposta é trasladada de um volume de manuscriptos estimaveis que pertenceu ao fallecido bibliographo o desembargador Thomaz Norton. Na folha de guarda do livro escreveu o citado possuidor o seguinte: Theotonio José Maria de Queiroz, penultimo ministro da Congregação de Oliveira pertencente aos padres Congregados. Morreu de edade de 84 annos, e ainda lia e escrevia sem oculos. Norton. O collector rubricou a collecção em 1811.