—Isso é pavoroso!—disse Eduardo Pimenta, contando com o applauso dos circumstantes.

Riu-se apenas o capellão, talvez despeitado por vêr que um profano lhe tomava a mão no seu direito de moralisar ácerca da inutilidade do dinheiro. E ninguem mais applaudiu a reclamação faceta do interruptor. Venceslau, porém, encarando-o com boa sombra, respondeu:

—Bem se vê que este meu amigo está rico!... A moral dos pobres é sempre o pavor dos que se receiam que ao apostolado da esmola se siga a tentativa do roubo...{83}

[VII]

Franqueza e mais franqueza. Assim é que a amisade
Póde ter duração e dar felicidade.

VISCONDE DE CASTILHO—No Avarento.

Se as sympathias de quem lê este livro começam a divorciar-se do viuvo de Antonia, apresso-me a divulgar um galhardo lance que deve restituil-o á estima das familias.

Eduardo, tres dias depois dos successos contados no anterior capitulo, procurou Venceslau, e abriu-lhe a sua alma d'este feitio:

—Volto a buscar o amigo extremoso que, depois de dez annos, me deixou vêr que tudo n'este mundo é imperfeito, sem excepção dos amigos.

Venceslau, ouvido o esperançoso exordio, depoz a penna, recostou-se á espalda da cadeira, fixou-o com attenção menos cordeal que admirada, e esperou em silencio.{84}

E o querido de D. Anna, com a firmeza e gravidade dos arrojos nobres, proseguiu: