—Que dote tem ella?

—Eu sei lá!...—respondeu o outro enleado.

—Eu devia ter indagado...

—Sim, tu, e não eu, a dever ser algum. Se casas com o dote, começas pelo fim. Devias estudar o archivo do commendador, antes de pôr a sonda ao coração da filha, acho eu.

—Fallemos serios—volveu o galan dos olhos tristes e das palpebras morbidas.—Parece-te inutil isto de saber-se com quanto um homem póde contar, quando se constitue chefe de familia?

—Parece-me util; é sem duvida util mercantilismo. Mas o util nem sempre se combina com o agradavel,{139} como aconselha o poeta romano. E, n'este caso, essa averiguação, sobre ser desagradavel, é extemporanea. Já te disse: acabas por onde devias principar. Suppõe tu que farejas os contadores de Francisco Vaz, e não achas lá aroma de vintem! Que fazes? Retiras o requerimento á mão da menina, visto que a menina se não presume herdeira?

—Se retiro o requerimento? Eu não requeri nada... não a pedi...

—É verdade, não a pediste... Fui eu quem a pediu para ti, por me haveres dito que ella se suppunha amada, e não embaida por velhacaria de mercador que anda de armazem para armazem comparando e apalavrando fazenda. Entretanto, respeito a dote, não te informes comigo. Como vês, tens aberta a porta do commendador: pergunta-lh'o. E, se elle te disser que é pobre, e as lavaredas do amor se apagarem no teu peito, suicida-te.

—Que me suicide?!—bradou espantado o sugeito, que annos antes andára a metter-se nas tezouras da parca.

—Sim, homem—voltou Venceslau tregeitando no sorrir um gesto de aborrecimento, se não era de menospreço.—Mata-te por egoismo. O amor proprio de um homem de bem deve ministrar-lhe o veneno ou o punhal suicida, quando se lhe está abrindo um abysmo de... de... não me lembra a palavra...