—Ora ahi está!... Que quer então, padre Manoel? Que eu vá pedir-lhe o obsequio de me conceder o seu amor?

—Eu ainda não disse a V. Ex.ª a minha missão—replicou o padre.—Se dá licença...

—Diga então.

—Ha muitos dias que eu andava sondando o espirito de Venceslau a respeito de V. Ex.ª

—O espirito ou o coração?

—Deixemo-nos d'essas distincções romanescas, minha senhora! O coração é um orgão do apparelho do sangue. O espirito ou alma é o motor das nossas cogitações. Não estou fallando poetica nem rhetoricamente. Se eu quizesse dizer que procurava aneurismas ou outras irregularidades de circulação, diria que sondei o coração de Venceslau; mas, se o meu intuito era indagar actos puramente moraes, digo que lhe sondei o espirito.

—Está bom: fico sciente. Ora conte lá o que sondou.

—Sondei que elle sentia por V. Ex.ª profunda estima, e aquelle grande respeito que se deve a uma dama bella, nova, rica, e sobre tudo honradora da memoria do primeiro e unico homem que amou. Dizendo-lhe eu que não cessava de instar com V. Ex.ª para que tomasse estado, advertiu-me elle que seria difficil o meu desejo, porque a fidalga não poderia amar alguem, depois de ter amado Antonio Vaz, que Deus tem. Tornei eu, redarguindo-lhe que Antonio Vaz, ao sahir d'este{180} mundo, lhe entregára o retrato da sua adorada noiva, por ser elle—o confidente de tantas angustias e saudades—alma digna de receber as lagrimas do amigo que morria, e as de V. Ex.ª que o ficava carpindo. Logo, conclui eu, se ha homem digno de ser amado pela snr.ª D. Julia, minha senhora, é aquelle que Antonio Vaz julgou digno das suas confidencias e da mensagem do moribundo para a sua amada.

—Que disse elle?...—interrompeu a curiosa vivacidade da senhora.

—Disse que V. Ex.ª o honrava com a sua amisade, e que este sentimento era o maximo galardão que elle devia esperar da fraternal cordialidade com que aliviára algumas mágoas de Antonio Vaz.