No semblante de Venceslau transparecia tambem a turvação das conjecturas. Aquelle convite era o primeiro, particularissimo, e subitamente resolvido. Até aqui havia chegado a confidencia do padre, cujo contentamento extraordinario devia ter mysteriosa significação nas perplexidades do convidado.{190}

Observou o hospede que D. Julia, a só com elle, denotava acanhamento desacostumado. A conversação esfriava no trivial. A politica era chamada á pratica, por ella mesma que tantas vezes a matraqueára, pedindo ao orador que deixasse a noiva em casa a fazer leis, quando lhe désse a honra de a visitar.

Quando um criado entrou á sala a saber se a fidalga mandava servir o jantar, D. Julia deu o braço a Venceslau Taveira, e foi dizendo:

—Somos sós, e mais o capellão. Ainda bem que na pessoa de padre Manoel Ferreira está symbolisada toda a academia real das sciencias. Eu concedo que fallem latim, e convidem para a meza todos os classicos romanos da minha livraria. Sinto não ter um triclinio para offerecer a Horacio; mas sentar-se-ha no collo do padre. Cicero, se vier; irá para o collo do snr. Taveira.

—Convidaremos Corinna, para que V. Exc.ª tenha alguem no regaço, disse o deputado.

O capellão, que já os estava esperando, ouviu a fineza do politico, e acudiu logo:

—Fallam da infiel amante de Ovidio?

—Não, senhor—disse Venceslau—fallavamos da poetisa grega...

—Rival de Pindaro—ajuntou o padre—a qual cinco vezes foi premiada nos jogos olympicos...

—Primeiro discurso academico!—atalhou D. Julia.—Não lh'o disse eu, snr. Taveira? Padre Manoel, continue, que eu sirvo-o de sôpa, se o snr. Venceslau não quizer acceitar o meu logar.{191}