—O latim é de Terencio—illucidou o erudito—e quer dizer que o snr. Venceslau Taveira é homem como os outros... Como os outros, quero dizer, os raros que se lhe assemelham na virtude e na sabedoria, na modestia e na moral, na vida illibada e...
—Pelo amor de Deus—interrompeu o deputado.—Parece que me está dictando a necrología, snr. padre Ferreira! Não usurpe aos mortos essas hyperboles... Veja os meus defeitos para que eu me considere tambem{193} examinado nas imperfeições menores. Já não é pequeno aleijão moral o defeito de coração que me censuram...
—Pois que quer?—volveu D. Julia—como hei-de eu julgar a sua indifferença em meio de tantas damas formosas e espirituosas que frequentam esta casa? Nenhuma o impressionou?
—Admirei-as... e passei, sem que ellas me vissem.
—Mas admirar...
—Admirar não é amar. As estatuas do Louvre admiram-se, e não se amam. A mãe que nos affaga, ama-se e não se admira. O amor brota da alma. A admiração forma-se no entendimento. Uma coisa tem muito d'arte; a outra deve ser espontaneamente natural.
—Materia estranha é essa em que não tenho voto—disse padre Manoel, engatilhando a pitada ao nariz.
—O homem do Evangelho não é o de Terencio—assentiu Venceslau.
—Mas—voltou o clerigo—posto que o Evangelho me não ensine nem consinta que eu aprenda experimentalmente o processo do amor, sei que Jesus Christo, instituindo o Sacramento que cinge com indissoluvel nó duas almas, santificou o amor que as identifica. D'este sacratissimo amor percebo eu; não se me importa saber se vem antes ou se vem depois da admiração; se é espontaneo da alma, se a alma é estimulada por affectos de natureza menos psycologica. Ha opiniões. Grammatici certant.{194}
Venceslau sorriu, sem encarar em D. Julia, que provavelmente não entendeu a phrase nem o sorriso.