VERGONHAS NACIONAES

É notorio que o capitão Vicente Lunardi, natural de Luca, e empregado na embaixada napolitana em Londres, effectuou em Lisboa, na tarde de 24 de agosto de 1794, uma viagem aerea.

Mas ainda ninguem disse que o aeronauta, antes da ascensão, esteve preso á ordem do intendente geral da policia Diogo Ignacio de Pina Manique, pelo motivo de vir com tal novidade a Lisboa, onde a inquisição, por causa identica, desejára queimar o padre Bartholomeu de Gusmão.

Os documentos que sobrevivem a tamanho opprobio são autographos, authenticados pela assignatura do famigerado intendente.

Lunardi chegou a Lisboa em fins de maio de 1794. N'esse mesmo anno, em janeiro, tinha elle em Madrid subido no seu balão, que desceu na provincia da Mancha, onde os camponezes o receberam tão benignamente que o levaram em triumpho á igreja parochial da villa de Orcajo.

Cuidou elle que a familia real portugueza o recebesse com igual agrado ao da côrte hespanhola.

Logo que chegou a Lisboa, foi intimado a comparecer na corregedoria do bairro, e obrigado a assignar termo de não subir ao ar, sem que a machina fosse examinada por peritos. Este exame levava em vista satisfazer as suspeitas do publico, receoso de artes diabolicas.

Assignou Lunardi o termo, e entendeu que dava plena satisfação ás authoridades e ao publico, expondo o balão com todos os seus aprestos. E, para isso, construiu uma barraca na praça do Commercio, e grudou nas esquinas das ruas mais concorridas um cartaz em que minudenciosamente explicava o balão exposto, e os mais instrumentos necessarios ás viagens aereas. (Veja o Panorama, tom. VIII, pag. 15).

Apenas o estirado cartaz appareceu, o intendente geral da policia, officiou ao desembargador Luiz Dias Pereira, corregedor do bairro dos Romulares, no theor seguinte, e textual orthographia: