«Traquete e mezena voaram. A embarcação fez agua por todas as pranchas descosidas; e, apesar de esforços desesperados, não vingaram cegar os sorvedouros. Quinze eram os nautas que se deram em uma jangada á misericordia divina. Ao abrir da manhã, avistaram a leste uns morros pardacentos; mas como não tinham governo que alli os proejasse, deixaram-se ir na corrente e á mercê de Deus até varar em terra.

«Em quanto se reparava a embarcação, o mestre do patacho, com Manoel Antunes e João de Arruda, embrenharam-se no matagal com os arcabuzes bem cevados. Viram mono de oito palmos, e dentes de duas pollegadas e meia; viram cobras grossas como pipotes de oito almudes; e viram a final uma mulher marinha que Francisco Corrêa descreve d'este feitio:

«Tinha todas as perfeições até á cinta, que se discorrem na mais formosa, e sómente a desfeavam as grandes orelhas que tinha, pois lhe chegavam abaixo dos hombros, e quando as levantava, lhe subiam a distancia de mais de meio palmo por cima da cabeça. Da cinta para baixo, toda estava coberta de escamas, e os pés eram do feitio de cabra, com barbatanas pelas pernas. Tanto que se viu no monte, presentindo ser vista, deu taes berros, que estremecia a ilha, pelo retumbo dos echos; e sahiram tantos animaes, e de tão diversas castas, que nos causou muito medo. Arrojou-se finalmente ao mar pela outra parte com tal impeto, que sentimos nas aguas a sua vehemencia. Todos se assustaram, menos eu, pois já tinha visto outra no cabo de Gué; e tinha perdido o medo com outras semelhantes apparições; e me lembra, que junto a Teneriffe vi um homem marinho de tão horrendo feitio, que parecia o mesmo demonio. Tinha sómente a apparencia de homem na cara, na cabeça não tinha cabellos, mas uma armação, como de carneiro, revirada com duas voltas; as orelhas eram maiores que as de um burro, a côr era parda, o nariz com quatro ventas, um só olho no meio da testa, a bocca rasgada de orelha a orelha, e duas ordens de dentes, as mãos como de bugio, os pés como de boi, e o corpo coberto de escamas, mais duras, que conchas. Uma tempestade o lançou em terra, e taes bramidos deu, que entre elles expirou, e para memoria se mandou copiar a sua fórma, e se conserva na casa da cidade d'aquella ilha.»

«Ao terceiro dia, 8 d'agosto de 1693, ouviram uma voz lá dos reconcavos da serra, a bradar: Portugal! Castella! Seguindo a toada das exclamações, toparam um homem de venerando aspecto, que lhes fallou assim:

«Graças a Deus Senhor; infinitas graças vos dou, por me chegardes a tempo, depois de tantos annos, em que eu visse gente da Europa; e logo olhando gravemente, e cortez para nós, disse: Senhores, de que nação sois? Nós pasmados, não acertavamos a responder; e conhecendo elle o nosso susto, nos animou brandamente, rogando-nos para a sua pobre habitação, aonde entrámos, e sentados em um tosco pau, nos fallou com taes palavras:

«Senhores, sois portuguezes, ou castelhanos? Respondei sem susto; que não tendes, quem n'esta ilha se opponha aos vossos designios. Se me procuraes, para acabardes com a minha vida, aqui me achaes sem resistencia, e sem defensa mais que a de Deus; e como de tanto viver estou aborrecido, grande favor me fazeis em me alliviardes de tão grande penalidade. Eu, que respeitava a sua pessoa, desejando satisfazer á sua pergunta, o certifiquei de que eramos portugueses, que arribáramos com um grande temporal áquella ilha: do que, tanto que me ouviu, posto de joelhos, levantadas as mãos, pondo os olhos no céo, soltando as lagrimas, deu graças a Deus, dizendo: Ah bom Deus, quão grande é a vossa infinita Providencia! E levantando-se, nos abraçou, e saudou, dizendo: Meus portuguezes, meus portuguezes; sem que as lagrimas cessassem: e levando-nos para o interior da cova, nos fez sentar junto a si, perguntando-me pelos companheiros, e pelo nosso infausto successo, de que lhe démos larga conta. Perguntou-nos quem reinava em Hespanha, e sabendo que em Castella reinava Carlos II, e em Portugal D. Pedro II, suspirando com alvoroço, disse: E Portugal tem rei! Oh Deus immenso, que te lembraste do teu reino! E dizendo-lhe nós como fôra acclamado el-rei D. João IV, e os milagrosos successos d'aquelle dia, não cessava de mostrar o gozo, que interiormente sentia: e logo repetindo novas lagrimas, suspiros, e soluços, nos perguntou pela conquista de Africa, ao que respondemos dando-lhe conta, do que sabiamos, e como desde a batalha, que perdera el-rei D. Sebastião, se não continuára, tomando-se horror a tal terra: e desejosos nós de sabermos com quem tratavamos, lhe pedimos nos consolasse, dizendo-nos, quem o levára áquella ilha incognita, e não arrumada nas cartas, e roteiros; ao que satisfez com taes palavras:

«No tempo, que Philippe II entrou com violencia em Portugal, se retirou muita gente, por não vêr o seu reino recuperado das mãos dos mouros pelos nossos ascendentes, sem ajuda dos visinhos, sujeito a principe estranho. Muito tempo andei retirado, discorrendo pelo interior da Africa, passei á Palestina, e outras terras, tendo tantos trabalhos por muito suaves, na consideração, de não vêr com os meus olhos o quanto padeciam os meus naturaes; e passados alguns annos, passando á Europa, cahi nas suas mãos; e entregando-me a certos homens, me levaram a uma embarcação na bahia de Cadix, que promptamente se fez á vela. Tinha o cabo ordem particular para que em certa altura me lançassem ao mar, sem que me ouvisse, nem me deixasse fallar; e notando elle as minhas acções, e innocencia, suspendeu a execução; até que na altura de Cabo Verde, me intimou a ordem com tanto pezar, que bem entendi o desejo que tinha de me favorecer. Preparou-se uma lancha, o melhor que se pôde, e n'ella se pôz mantimento para tres dias. Entrou logo a animar-me, exhortando-me a que confiasse em Deus, que me poderia livrar do perigo, a que me haviam de expôr: e me mandaram baixar á lancha, o que não quiz executar, sem me confessar, e me preparar espiritualmente, para entregar a alma a Deus; que tudo se me concedeu; e tanto que baixei, cortaram o cabo, e me entregaram á disposição das ondas. Não perdi o animo, antes constante soffri este golpe, esperando, que Deus olhasse para a minha causa; e nadando a lancha livremente, na manhã seguinte de 4 de outubro, cheguei por acaso a esta ilha, em que habito sem que no discurso de tantos annos visse alguma creatura racional. Penetrei o interior, encontrando a piedade nos brutos, que não experimentei nos homens; e descobri esta concavidade, que a natureza devia ter obrado para meu abrigo. Aqui me recolhi, aqui tenho passado tantos annos, sustentando-me com datiles, e outras frutas. Vivo, e não sei para o que vivo; Deus sabe o para que.»

«O testemunho do narrador, confirmado por Manoel Antunes e João de Arruda, assevera-me que se alguma vez houve D. Sebastião era aquelle. Muito instaram os nautas que se deixasse levar a Portugal; «mas elle--acrescenta o mestre do patacho Nossa Senhora da Candelaria--encarecidamente nos pediu com as lagrimas nos olhos, que o não precisassemos a tal jornada, pois não chegára ainda o tempo de passar a Portugal; que pelo amor que nos tinha, o lançassemos, terra firme, em qualquer parte da Africa; e que debaixo da palavra que lhe haviamos de dar como portuguezes partiria comnosco; o que lhe juramos. Perguntamos-lhe se tinha alguma cousa na sua cova, que embarcasse; e respondeu, que desde que n'ella entrára não cuidára mais que viver para Deus; e que todos os annos lavrava por suas mãos uma tunica de folhas de palma, para cobrir honestamente o corpo; na cova não tinha mais que uma cruz, que por suas mãos fizera de madeira; e que essa deixassem, para que n'aquella terra ficasse o signal da nossa redempção; e quando ella se povoasse nos tempos futuros se acharia tambem a noticia do seu habitador. Embarcou-se comnosco, beijando a terra, com muitas lagrimas; e fazendo-nos á vela, esteve em nossa companhia dous dias e meio, em que nos contava monstruosidades d'aquella ilha; e satisfazendo ao seu pedimento o lançamos em terra duas leguas distante de Arguim, expondo-lhe os perigos a que se expunha, sem que o podessemos persuadir a suspender o desembarque em terra de barbaros; ao que respondia, que Deus que o conservára até aquelle tempo, o livraria de todos os perigos.

«Despediu-se de nós com tantas lagrimas, e gosto, que bem mostrava as saudades, que de nós levava, e o quanto se alegrava de passar áquella terra. Abraçou-nos a todos, e saltando em terra, a beijou, e levantando as mãos agradeceu a Deus as mercês que lhe fizera, e esperava receber da sua piedosa mão; e penetrando aquella costa inculta, nos deixou sentidos pela falta da sua companhia. Jámais podemos alcançar, o sabermos d'elle, a sua patria, e nome; divertindo a resposta politicamente com tanta gravidade, que nos não dava confiança, para instarmos; e sómente ao despedir me disse, que a seu tempo o saberiam os nossos descendentes; e dizendo-lhe eu nos consolasse ao menos declarando o tempo, nos disse: que Deus o sabia.

«Varios discursos fizemos sobre este homem, conservado por tantos annos n'aquella ilha, e agora caminhando por taes desertos; e nos persuadimos ser cousa maior. Deus o leve, e traga a salvamento.»