Não condemnemos crenças, nem aspirações.

Tenho medo que o credo de hontem seja o anathema de ámanhã.

Apavora-me o receio de que o axioma de hoje, da actualidade, seja a mentira, e a blasphemia do futuro.

Depois de Platão, d'Aristoteles, de Socrates e de Christo, que sabemos nós mais do mundo moral?

Newton, Galileu, Harvey, Cuvier, Laplace, Spinosa, Kant, Proudhon e tantos outros, n'essa pleiade immensa de illustrações, que vão atravessando os seculos, e renegando symbolos e credos, que passaram, são, para mim, a demonstração irrespondivel d'este clamor da consciencia.

Basta.

Volto ao manuscripto.

No pendor d'uma das montanhas sobre que está edificada Lisboa, no ponto mais suave da encosta, levanta-se um palacio, cuja apparencia é modesta.

Ahi vive a marqueza.

Sobe-se uma escada de marmore á esquerda d'um pateo, que conserva todas as tradições arabes. No patamar superior rasga-se am corredor sombrio, e pouco alumiado, que conduz a uma saleta onde as elegancias modernas nada teem que vêr.