--Digo-lhe, que o publique. Mas escute: faltam-lhe ahi os lampejos de fé viva, a crença robusta na liberdade, que animava e esforçava os heroes do Porto. Venha, aqui, por vezes, ouvir, como lh'as tenho contado, as lendas d'essas lutas de gigantes. Perdôe muito, como eu tenho perdoado, aos homens que se esqueceram ou que erraram. Analíse e estude as variadas transicções, que nos trouxeram a estas sinistras épocas de descrença. Consulte o passado.

Abri, para sahir, a porta d'este magico e encantador gabinete na mesma perplexidade d'espirito com que entrára.

--Ouça, visconde--disse-me ainda esta illustre senhora, na phrase breve, e perceptivelmente imperiosa com que parece ordenar.--Não esqueça as historias que lhe tenho narrado. Dê-as como suas ou como escriptas pelo doutor João Aleixo--nem por isso lhe tomará elle contas na eternidade.

Curvei-me respeitoso, e sahi.

A condessa e a marqueza insistiam pela narração das anecdotas do seu tempo. Quanto ao mais, quanto á historia vasta, severa, incisiva, analytica, e verdadeira, como é ou deve ser, mandavam-me estudal-a nos livros, porque não podiam, não queriam ou não desejavam esclarecer-me.

Creio que o seculo XIX envolveu no sudario da agonia as idolatrias da idade media, assim como as lendas do Golgotha amortalharam, para todo o sempre, a mythologia pagã.

Não se repetem agora os clamores sinistros, que reboavam nas florestas da Thessalia, e se ouviam nas clareiras dos bosques sagrados da Grecia e de Roma: «Morreu o Deus Pan!»

Mas vai acabando a democracia com os preitos, que as cruzadas, as côrtes d'amor, os torneios, e as cavallarias feudaes prestavam á mulher, divinisando-a. Quer-me parecer que a ultima Egeria, Madame Rolland, expirou no cadafalso em face da estatua da liberdade. É mais uma realeza que se extingue com tantas outras.

Onde acabava o oraculo começava a crença. Escutei o futuro.

E conservei intacto, sem rasuras, nem entrelinhas, o manuscripto do desembargador.