INEDITO DO POETA FR. BERNARDO DE BRITO

Escreveu o famoso cisterciense a Sylvia de Lizardo, e ninguem o trata de poeta quando o louva ou moteja. Chamam-lhe o chronista, o classico, o douto, o mentiroso, o massador, o milagreiro; poeta é que não; e houve até um frade da ordem d'elle, Fortunato de S. Boaventura, o author do Punhal dos Corcundas, que positivamente desbalisou de poeta e de author da Sylvia de Lizardo o vernaculo author da Chronica de Cistér.

Pois foi poeta, e dos bons do seu tempo, aquelle Balthazar de Brito de Andrade, que por amor do patriarcha se crismou em Bernardo.

Teve elle o ruim sestro de desfazer na prosapia dos outros. Raro fidalgo lhe sahiu incolume do crisol em que por obrigação do officio de historiador, elle acendrava o fino ouro dos Trocozendos, dos Romarigues, dos Egas Bufas e outros condes das raças romana é goda.

Nos descendentes do Espadeiro, que eram a geração dos Coelhos, beliscava elle, á conta do assassinio de Ignez de Castro. De si, dizia o frade, que os Britos, em Portugal, derivavam dos Brutos de Roma.

Um descendente de Egas Moniz, chamado João Soares de Alarcão, como era poeta, satyrisou a maledicencia de fr. Bernardo de Brito com este soneto:

Aos profundos imperios d'el-rei Pluto
Irás, Bernardo, pelo que has escripto,
Pois dizes que de Bruto vem teu Brito,
Ficando tu só n'isso Brito e bruto.
Tu vens d'aquelles que a pé enxuto
Passaram, com Moysés, o mar do Egypto,
Ou vens do que com sangue do cabrito
Tantos guizados fez sem nenhum fructo.
Chamastes ao teu livro Monarchia,
Sendo Mona que cria monstros varios,
E tornastes de ferro a idade de ouro.
Não te mettas em casos temerarios;
Pasta nas hervas, bebe da agua fria,
Ou na velha escudela o caldo louro.

O monge de Cistér responde pelas mesmas rimas:

Maçarico dos charcos de el-rei Pluto,
Que taes marmanjarias has escripto,
Que ao douto frei Bernardo ou Bruto ou Brito
Picas com bico infame, sujo e bruto;
Jámais será de Ignez o pranto enxuto,
Pois a fazes mais quartos que um cabrito,
Dizendo que nas mãos deu o esp'rito
De Coelho matador, sagaz e astuto.
Não vem da lusitana monarchia
Martinho mono, pai de cascos varios,
Sua mãi de Aguilar, aguia, não de ouro.
Não te mettas em casos temerarios:
Que louro não honra tua musa fria,
Mas de uma pouca de... o caldo louro.

As injurias do primeiro terceto entendem com os progenitores de João Soares de Alarcão. Martinho, se era mono, sobrava-lhe direito a ser da monarchia lusitana; mas tambem o outro se demasiára, vituperando de mona a Monarchia do frade. Tratavam-se de macacões um ao outro. Pai de cascos varios, invectiva o poeta de Alcobaça. Pela variedade da cascaria, entende-se que capitulava de cavalgadura o adversario: saldo bem ajustado com o outro que lhe chamára bruto.