Amára-os extremadamente. As duas crianças excruciaram-lhe a agonia; mas expirára com a certeza de que seus filhos, e herdeiros de parte de seus haveres, não balbuciariam, em horas de fome, o nome de seu pai.
Mas a justiça desherdou os orphãos, e deu o espolio do advogado á sua viuva.
O menino alimentou-se cinco annos da caridade de uma criada de seu pai.
E, quando tinha seis, appareceu livido e pobremente vestido a pedir esmola no tribunal da Boa-Hora--alli, onde seu pai triumphára nas lides da eloquencia.
A bemfeitora que, até áquelle dia lhe repartira do seu pão, quando sentia a mão da morte sobre o seio, disse á criança que fosse ao tribunal e mendigasse, lembrando-se que alli concorriam pessoas que tinham conhecido seu pai.
O snr. João Bernardino da Silva Borges viu o menino andrajoso, a tiritar, com o espasmo da fome nos olhos--aquelle olhar espavorido da miseria--que parece sagrada nas criancinhas--aquelle olhar torvo, expressão de assombro do anjo a tremer sobre o cairel d'este inferno do mundo.
O menino tinha uma carta na mão. O snr. Silva Borges leu a carta. Era a supplica da moribunda a favor do desvalido filho de seu amo.
E conduziu a criança, onde lhe dessem a esmola do jantar e da cama.
Ao outro dia, o Jornal da Noite, publicando uma carta commovente do protector do orphão, acompanhava a invocação á caridade de sentidas e pungentes palavras.
E, no dia immediato, o mesmo jornal exultava noticiando que o orphãosinho estava amparado, no regaço da caridade abundante, nos braços de alguem que ouvira o echo das divinas palavras de Jesus: «Deixai que as criancinhas se aconcheguem de mim.»