Então, qual vem a ser a missão das exc.mas presidenta, vice, vogaes, thesoureira, secretarias?

Leitor, que estás a impar de ternura, e tens o rosto banhado de lagrimas de consolação, saberás que as referidas nove senhoras--que tu já conheces dos lautos bailes, e das toilettes esplendidas--congregaram-se agora para promover um beneficio ao orphão no theatro de D. Maria.

Ahi está o que é. Ainda agora é que estas dadivosas senhoras vão sondar a magnanimidade publica; vão dar uns toques de elegante apparato á caridade, e ao mesmo tempo convidar-vos a pôr hombros áquella ponderosa empresa de agasalhar uma criancinha que se alimenta com um pouco de amor e algumas migalhas sacudidas das cêas opiparas. A caridade de Lisboa! A caridade do espalhafato! Aqui, no Porto, o orphão, a esta hora, estaria agasalhado, sem que a imprensa conhecesse o nome do bemfeitor.

E a imprensa de Lisboa exalça encarecidamente a exuberante bizarria das senhoras que promovem nos corações alheios o sentimento da esmola. Peço licença para tambem me accender em admiração de tamanho arrojo, e perguntar, por esta occasião, aos jornalistas se, no seu cadoz de phrases, ficou alguma com que se louve aquella criada pobresinha que sustentou o menino cinco annos, e o largou do seu seio quando o coração se lhe afogou nas ultimas lagrimas.


PROFUNDA REFORMA NOS COSTUMES DA VIA-FERREA PORTUGUEZA

Quando Portugal emergia das trevas da meia-idade, em 1873, e a via-ferrea de Portugal era roupa de francezes, o scintillante escriptor Ramalho Ortigão enviou aos snrs. François et Ladame (cumpre não aceitar a traducção de Bordalo Pinheiro--Francisco e a mulher) uns urbanos queixumes ácerca da bruta ladroeira que os funccionarios da via-ferrea perpretaram em parte das batatas de um sacco enviado desde o Minho ao percuciente critico. Ortigão, cujo agudo espirito argúe abstinencia de alimentação farinacea, conclue a sua epistola, modêlo de graça portugueza--que é a graça de todo o mundo--offerecendo aos directores da via-ferrea todas as futuras e porvindouras batatas, visto que ss. s.as, cedendo-lhe algumas, soffriam tal qual desfalque.

N'esse tempo, estava eu em Lisboa a vasquejar nos demorados paroxismos da anemia, resultante de dyspepsia, complicada com hepatite, e prodhromos de encephalite, e symptomas de curvatura de espinha, e esgotamento de fluido nervoso, afóra a espinhela cahida.

Escrevi, n'esta concurrencia pathologica, a um amigo meu, residente no Porto, que me comprasse alli doze garrafas do mais antigo e secco vinho que se lhe deparasse em garrafeira particular. Quando conclui a carta, cuidei que expirava, por que tinha consumido em quatro idéas sem estylo o oxygeneo e acido carbonico de que podia dispôr.

D'ahi a dias, o meu amigo enviou-me o titulo de recepção de doze garrafas de vinho, compradas por 12 libras, e enviadas pela «grande velocidade», cuidando elle que os ladrões não as apanhariam na carreira.