A meu vêr, em quanto o marquez de Gouvêa mandava ajaezar os cavallos para a funesta fuga, um dos muitos idolatras da formosissima Maria motejava uma quadra e derivava d'ella a glosa tão presada n'aquelles tempos:
A D. MARIA DA PENHA DE FRANÇA
MOTE
Abre-te, penha constante,
serás minha sepultura;
e, se os meus ais te não movem,
digo-te, penha, que és dura,
GLOSA
Penha, já sei que és tão dura,
porque dous soes te geraram;
seus raios te despojaram
das reliquias da ternura:
Porém, se a corrente pura
de meus olhos incessante
abrandar um diamante;
a meu pranto sucessivo,
quebra-te, marmore vivo,
abre-te, penha constante.
Até nas mais duras penhas,
lavrador o tempo sendo,
as aguas, que vão correndo,
fazem regos, abrem brenhas.
Não receies tu que venhas
a perder por menos dura;
pois meu pranto o que procura
é desfazer-te em piedade;
e, se abrir concavidade,
serás minha sepultura.
Lagrimas não te enternecem
antes te tornam mais dura;
roubou-lhe o preço a ventura
ou por minhas desmerecem.
Meus ais sentidos parecem
golpes, que pedras commovem;
mas como faiscas chovem
de ti, que farei, oh penha,
se o teu rigor mais se empenha
e se os meus ais te não movem?
Teu nome a dizer se empenha
quem tu és por semelhança;
pois no garbo és toda frança,
na dureza és toda penha:
Penha em que pienha tenha
essa rara formosura;
mas, se estatua ser procura
a meu suspiro incessante,
mais que o mais duro diamante,
digo-te, penha, que és dura.
ANTONIO SERRÃO DE CASTRO
As indagações de Diogo Barbosa Machado, ácerca do poeta Serrão, reduzem-se a datar-lhe o nascimento.
Á falta de outros subsidios, bastariam as poesias do travesso sujeito a esclarecer-lhe a vida mysteriosa aos mais atilados investigadores. O maior numero d'ellas está inedito. E o seu mais notavel poema, em tercetos, que perfazem 2:090 versos octosyllabos, chama-se Os ratos da inquisição.