Petronilla, cantora italiana, representou em Lisboa desde 1739 até 1745. Não era bella, nem artista superior; enguiçava, porém, com philtros diabolicos; fascinava, fulminava, cauterisava o cerebro das mais solidas cabeças, sem respeitar as testas coroadas.
Um dos seus amantes foi D. João V, que orçava então pelos cincoenta. Petronilla, ou Pellatroni (dava por ambos os nomes) não se parecia com as «princezas de comedia e deusas da Opera», consoante Arsène Houssaye denomina as actrizes e dançarinas francezas coevas da amante do nosso Luiz XIV. Era absorvente como as suas parceiras; mas não esbanjava em galanices, equipagens e banquetes o producto liquido das suas transacções mercantis com o rei e os outros. Tão queridas se logravam as actrizes dos fidalgos portuguezes quanto os actores eram desprezados. O fidalgo, que não tivesse uma aventura de theatro, apenas poderia hombrear em proezas de galã com algum frade bernardo de costumes suspeitos. Os frades propriamente, n'aquelle tempo, frechavam do seu camarote o collo despeitorado da Petronilla com settas de amor platonico. Havia no theatro o camarote dos frades, collocado por baixo do camarote das açafatas. Tinha rotulas de pau, por entre as quaes os monges assopravam uns suspiros quentes como as lufadas da Arabia. Mas não passavam d'estes resfolegos os frades.
A porção illicita d'aquelles espectaculos pertencia ao rei e aos fidalgos. Estes gabavam-se de que as actrizes eram petisco, morceau friand,—dizia o cavalheiro de Oliveira—que só aos grandes senhores competia. Na actriz não amavam arte nem belleza: amavam a comediante.
D. João V, acirrado pelos ciumes dos seus camaristas, deixou-se illaquear n'aquelles braços elasticos da Petronilla, e locupletou-a de ouro e pedras.
Quando se passou a Castella, a garrida comica levou trinta cavalgaduras carregadas de riquezas—diz Francisco Xavier de Oliveira—e acrescenta que, no theatro de Madrid, a quantidade e valor da pedraria que ostentou eram taes que as damas de primeira plana se morderam de inveja. (OEuvres mêlées... Londres, 1751, pag. 33). Em Hespanha continuou a enthesourar as crystallisações do seu espirito, amoedando a ternura. A final, quando viu que era tempo do cuidar da alma, visto que a parte menos espiritual da sua pessoa andava em geral descuido, retirou-se capitalista, beneficiou mosteiros, fez capellas de santas, do mesmo passo que o seu real amante D. João V fazia capellas de santos. Ambos comediantes, e ambos, a final, fizeram figas ao embaçado demonio.
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Isabel Gamarra, hespanhola estreme, floreceu em Lisboa dezesete annos antes de Petronilia, escripturada pelo actor e emprezario castelhano Annio Ruiz. Este homem era optimo poeta, philosopho, historiador e cortezão—assevera Francisco Xavier de Oliveira.—D. João V dava-lhe uma pensão annual de 120 moedas de ouro. Não foi estranho aos amores de fina tempera velados pelos reposteiros heraldicos. Tinha espiritos levantados como o seu contemporaneo Dufraisne. Em quanto engodava os fidalgos com as suas actrizes, levava ás fidalgas consternadas a boa philosophia, a boa poetica, e os casos historicos analogos á situação. E assim viveu e medrou longos annos em Lisboa.
Isabel Gamarra floreceu entre nós quando em Paris arrebatava corações e algibeiras outra hespanhola, chamada Marianna Camarro, a celebrada dançarina; mas a nossa, que parecia, com pouca corrupção, a outra, quanto ao appellido, deixou em Portugal memorias dignas de romance de grande fôlego.
Um dos seus amantes foi o marquez de Gouvêa, pai do duque de Aveiro, justiçado como regicida em 1758.
Era casada. O marido, a rogos do marquez, recebeu alguns mil cruzados; e, deixando-lh'a, declarou que a sua alliança não tivera a seriedade matrimonial. Isabel abundou no parecer do marido, e sahiu do theatro.