«Nascemos nós hontem por acaso?
«Vimos de tão longe como vós. Dizeis-vos catholicos por excellencia--pois estudai, no genesis biblico da vossa crença, a origem de todos nós. Os nossos brazões não datam de nenhum salteador afamado, que responderia hoje, se existisse, em audiencia criminal, e soffreria, pelos seus feitos e façanhas, a pena de prisão cellular ou de degredo para os climas africanos. Os nossos titulos de nobreza não os devemos a complacencias cortezãs, nem á officiosidade torpe e obscena de alguns avoengos, derreados junto dos thronos, a levar da ante-camara para a alcova as Messalinas, Pompadours e Dubarrys, que não sabiam, nem sabem resistir á lascivia e impudicicia dos reis. Não foi nos prostibulos, nem nas encruzilhadas, que calçaram os nossos avós as suas esporas de ouro. Cingiram elles, com mais lustre e gloria, a espada de cavalleiros. Vem de mais longe os nossos brazões, e estão gravados, por fórma indelevel, na superficie do globo.
«Quereis vêl-os? Examinai-os. Os titulos nobiliarchicos, que possuimos, datam do primeiro homem, que cavou o solo, que accendeu o fogo, que descobriu e bateu o ferro, que sulcou a terra com a relha do arado, que desenterrou e fundiu metaes, e que devassou, no primeiro fragil lenho, as vastas solidões do oceano.
«Fomos nós que metamorphoseamos este globo, triste, arido e deserto, n'um paraiso esplendido e animado. Creamol-o segunda vez, para cumprir a palavra de Deus, que nol-o deu para este fim: ut operaretur eum.
«Se os céos celebram a gloria do Eterno, se, como clamava o psalmista, o firmamento annuncia e proclama as obras do Senhor, a terra--que é a nossa obra--narra a nossa propria gloria.
«Fomos nós que lhe fendemos a crusta, que a semeamos, cultivamos, aformoseamos, cobrimos de monumentos, que, como perolas desenfiadas, rolaram pela vastidão das campinas, e que lhe demos, como cinto da sua propria formosura, essa rede infinda de estradas e canaes, que se cruzam, e estendem por toda a amplidão da esphera terrestre. Fomos nós que descemos ao centro das suas entranhas, para lhe extorquir os seus inapreciaveis, e inexhauriveis thesouros. Não ha flôr, que desabroche nos campos, não ha espiga, que se erga robusta, em toda a vastidão da cultivada leziria, não ha fio de linho, nem de algodão, nem de sêda, não ha lamina de ferro, de ouro, ou de platina, não ha pedaço de pedra, prancha de madeira, capitel de columna ou mastro de navio, que não conserve o cunho das nossas mãos, e o perfume do nosso amor. Sim, o perfume do nosso amor--porque o trabalho é a oração--e o perfume do nosso amor é o incenso e a myrrha, que acompanham as nossas offerendas ao Eterno.
«Subi da galeria subterranea das minas até á cupula das sumptuosas basilicas, e das calhedraes mais augustas e imponentes, sahi das elegantes capitaes da civilisação moderna e devassai as praias selvagens mais longinquas, encontrareis, em toda a parte, os passos dos filhos do povo: a democracia.
«Somos o lavrador, que prende os bois ao arado, e que sulca a terra laboriosamente--o nosso insaciavel e inesgotavel thesouro. Somos o segador, que ceifa o trigo, nas ardentes, e afflictivas calmas do estio; o robusto ceifeiro, que corta, nos prados, esmaltados de papoulas e boninas, o alimento constante dos rebanhos; o vinhateiro, que poda, empa, e cava a vinha; o navegante, que se afadiga em transportar os artefactos da creação humana; e o commerciante, que leva e faz circular em todas as zonas habitadas--como o sangue nas arterias--os succos da terra, e os productos das mais variadas industrias.
«Nós somos o operario curvado sobre o tear, o mineiro, que vive soterrado, e arranca das entranhas da terra o carvão, que alimenta a machina, multiplicando os productos; o ferreiro, que forja e bate o ferro; o carpinteiro, que aperfeiçoa e adelgaça a viga; o pedreiro, que abre os caboucos, e levanta os muros do edificio; a fiandeira, que estende na roca a estriga de linho; o tecelão, que faz o panno, transformado em enxoval da familia; o soldado, que vela nos limites sagrados do solo da patria; e o marinheiro, que atravessa os mares, levando bem alto o pavilhão, que é o emblema d'um povo, e o estandarte sacrosanto do seu paiz.
«Nós somos tudo. O nosso nome é legião.