«Á noticia d'esta cidade chegou, reverendissimo bispo tyranno, ser v. s.ª a origem de que este reino tão catholico padeça oppressões tão insoffriveis, como elle testefica no miseravel estado em que se vê, tomando-vos para executar a mais infame empresa que em nossos tempos vimos, nem de nossos antepassados sabemos;--que até considerada envergonha. Porque, quando a desventura chegasse a tanto, que, como por prophecia, houvesse alguem de tyrannisar a patria, fosse o fidalgo pobre, rico de filhos e falto de rendas; e ainda n'este, depois de satisfeito, cessaria a ambição. Mas um prelado, a quem havia de faltar o tempo para dar graças a Deus de o chegar a ser, e que aos pobres havia de dizer: tribuo vobis pro omnibus quæ retribuis mihi--grão maldade! e com razão podem dizer por vós o que Platão por Dionisio: Vidimus monstrum in natura honimis.

«Que naus vistes entrar n'estes portos? Que frotas vistes vir lá das Indias? Que riquezas n'este pobre reino? E que farturas n'este nosso Alemtejo que, como filho tão mimoso de seus paes, sentiu como de padrasto o pão de vosso alvitre? Mas a verdade, Aquelle que é a mesma verdade, diz no Deuteronomio, cap. 4: Colligite ex vobis viros sapientes, et nobiles. A sciencia em vós é em tudo um retrato natural da de Nero, que aprendeu todas tendo por mestre ao grande Seneca, e foi um dos mais torpes tyrannos do mundo, até chegar a matar sua propria mãi, como vós agora quereis fazer á amada patria; porque em fim, sciencia sem virtude, não vem a ser uma nem outra cousa; mas elle já nenhuma professava, e vós professaes ambas, e não exercitaes alguma. A nobreza conservam os que carecem d'ella, e o dar-lhe nascimento, na benigna clemencia, é para que, convocando os animos, esqueçam a baixeza dos seus progenitores. E vós, pelo contrario, querereis dar vida ás de Antonio Fernandes, vosso pai, e de Anna Antonia, sua mulher... Os extremos todos são maus. Temos rei catholico, não o façaes tyranno; é principe benevolo, não o façaes cruel. Deixai Portugal ser pobre já que vos deixou ser bispo. Não vêdes que por Targa ser de herejes, vos fizeram do Porto? e que por o Porto não querer, vos faziam de Coimbra? As cidades são como os parentes; corre-lhes a dôr pelas veias como o sangue a ellas. Ao menos estai advertido no salto em claro que haveis de fazer por este arcebispado, tomando o pé atraz como Sebastião de Mattos[8], mas não seja d'estas partes. Não sei se vos poderão valer os fóros das casas de Luiz de Miranda. O cavalleiro, se lhe chamam tardo, madruga; se desbocado, cala-se; se demasiado, tempera-se; se adultero, abstem-se; se peccador, emenda-se; mas, se é traidor á patria, não ha emenda nem desculpa. Sabei que a propriedade d'este reino foi sempre não desobedecer nunca ao seu rei, nem deixar-se mandar de tyrannos, e que vale mais pobre, dando pouco, que desesperado.

«De muito atraz trazemos por criação a distribuição de tres cousas: a alma para Deus, o melhor para nós, e a fazenda para el-rei; e quem se viu n'isto, não duvída dar quartos, mas quintos para quintas; e por vosso conselho não havendo n'este reino quintaes (digo de arvores, que de canella já nem sabemos de que côr é) soffre-se mal. E se vós quereis excessos para a patria, e permittir-se contra ella o favor que houve Nuno Alvres para Pedralves traidor, a quem o céo subverteu, haverá meninos em Evora para Gaspar do Rego se abrazar.

«Por Ithaca, nobre ilha de asperos penedos, passou Ulysses immensos trabalhos. Disfarçado el-rei Codro para libertar a patria, se offerece á morte; pela patria renunciou o imperio; e Mucio Scævola renunciou a esperança da vida por a tirar á propria que como vós a perseguia[9]. E os naturaes que a isto não se oppõe vem a acabar n'ella, como Annibal em Carthago e Catilina em Roma. Attendei ao que diz o apostolo: Anna militiæ nostræ non sunt carnalia, sed spiritualia. Sois christão, sois sacerdote, sois prelado, sois natural do reino: dizei d'elle o que n'elle vêdes, informai das Necessidades; e, se não sabeis d'ellas, ahi amam a caridade, vereis de quantas sois secretario, quantos fidalgos padecem, quantos senhores acabam, quantas donzellas perecem. Falta o ouro, a prata; o contracto, por que vós não faltaes, que nem Deus o quer dar superfluo, nem o necessario se promette dar-se. Perguntando-se a Alexandre para que queria ser senhor de todo mundo, respondeu: Todas as guerras que se levantam são por uma de tres causas: ou por haver muitos deuses, ou por haver muitos reis, ou por haver muitos tributos: quero ser senhor de todo o mundo e rei para que não haja n'elle mais que um Deus, nem se conheça mais que um rei, nem se pague mais que um tributo.

«Elle era pagão, e vós christão; elle rei, e vós bispo; elle creado na terra, e vós na igreja; nunca ouviu o nome de Christo, e vós jurastes defender o Evangelho. Parece que muito differe uma cousa das outras. Se o fazeis por fama, já é geral, pois nós vos sabemos o nome. O vosso nome é flagellum patriæ. Se o fazeis por interesse, já basta o que tendes; se mais quizerdes, já cá passamos signal; se nós podermos, com o mais constará a pontualidade... Tende lastima de um reino que, sendo antigamente um mar, se vai esgotando a Castella por um Rêgo. Nosso Senhor vos converta, e vos traga a nossas mãos, para augmento d'este reino, e vida e paz e quietação de seu rei. Evora 27 de agosto de 1637. Por mandado do povo todo junto

Manoelinho Menino

[8] Este Sebastião de Mattos é o arcebispo de Braga que depois conspirou contra D. João IV, e morreu no carcere.

[9] Não nos parece clara a redacção, ou ha elisão de palavra no meu traslado.


A MORTE DE D. JOÃO