--O meu relógio!--exclamava o pobre Sousa Netto--é o que me restava da minha mocidade!

Sousa Netto orçava pelos sessenta e seis; tinha gota, intervallos de demencia, havia sido tambem D. João, e usava constantemente habito de Christo no peito, mouras vermelhas nos pés, e um capacete de lontra na cabeça.

O outro, aquelle que encontrava Imperias no paço, esphacellou-se na testada de uma taverna; os guzanos da cova de certo taparam os seus narizes microscopicos quando o esquife o vasou nas entranhas da natureza, mãi carinhosa do cão podre, do homem podre e de tudo que é perfeito n'este mundo.

O homem espoliado do caldeirão ensandeceu a final, abrazado em concupiscencias que resfolegavam em colcheias, em decimas, em sonetos, que me recitava a mim e a Matheus de Magalhães com uns olhos tamanhos e tão accesos que parecia o diabo de Santa Thereza de Jesus.

Estes dous typos teem moldura no poema de Guerra Junqueiro.

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As mais nervosas e engraçadas paginas de versos que eu tenho lido de lavra portugueza são a parte d'este poema intitulado Romanticismo, e a outra chamada Os saltimbancos. São trovoadas de talento. Paradoxos assombrosos que vos tiram do diaphragma epilepsias de riso.

Ás vezes, magôa uma especie de motejo que parece rebellar-se contra tudo que grande parte da sociedade respeita. Vem alli de camaradagem com a ironia implacavel do snr. Junqueiro o estylete sarcastico de lord Byron e de Alfred de Musset; mas o nosso poeta avantaja-se na crueza das invectivas contra o dogma, afistulando soberbos versos de um atheismo que de certo lhe não está no coração, nem na educação nem nos irreprehensiveis costumes. Tirante isto, ahi é tudo alegria; e até, quando a musa philosopheia por transcendentes contemplações, lá surde a palavra comica, o simile galhofeiro, esta cousa moderna que não tem nome,--uma bella extravagancia que nos regosija. E assim é como se querem os livros, porque lá diz Aristoteles no 2.º da Ethica, cap. 12, que a melancolia corrompe a natureza e faz pasmar o coração.

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Este modo de poetar será o Ideal moderno? É, com toda a certeza. Quando eu era rapaz, o poeta ideal era o ethereo, o metaphysico, o espiritualissimo. Por tanto, o ideal, segundo Taine, não tem que vêr com o ideal, segundo Lamartine. No livro do snr. Junqueiro, bem que os carnalissimos assumptos alli poetisados não pareçam ideaes, abona-os o indeclinavel legislador n'esta materia. A obra d'arte--diz Taine--põe o fito em manifestar algum caracter essencial ou relevante, mais perfeita e lucidamente do que os objectos reaes nol-o mostram. O artista, por tanto, concebeu a idéa d'esse caracter, e, a sabor da sua idéa, transformou o objecto real. Este objecto assim transformado, sahe conforme á idéa, ou, para melhor o dizer--é o ideal. Assim, pois, passam as cousas do real ao ideal, quando o artista, ao reproduzil-as, as altera a bel-prazer da sua idéa, etc. (L'Ideal dans l'Art).