CARTA AO SNR. CONSELHEIRO VIALE

Ill.mo e exc.mo snr.

Não sei se v. exc.ª é assignante d'estas Noites de insomnia. A certeza affirmativa ser-me-hia por tanta maneira estimulo de desvanecimento que eu não ouso preluzir-me a hypothese de que v. exc.ª contribue com dous tostões para a minha gloria. Quero antes, absorvendo as fumaças da vaidade, prefigurar-me que v. exc.ª nunca se apoucou até ás futilidades dos meus livros. Na modesta conjectura, pois, de que estes folhetos lhe são menos conhecidos que as lyricas ineditas de Amphião, filho de Jupiter e Antiope, afouto-me até á temeridade de enviar-lhe este n.º 6 das Noites, solicitando da sua cortezia a graça de m'o lêr desde paginas 88 até paginas 94.

O bode que eu ahi offereço a Apollo, á imitação do cultrarius dos sacrificios antigos, chama-se fulano de Silva Pinto, e diz que foi discipulo de v. exc.ª em historia antiga, depois de ter escripto que uma actriz e dous actores eram uma trilogia.

Tenho a honra, exc.mo snr., de trasladar, para escarmento de tão erudito professor, as textuaes palavras d'este seu discipulo, estampadas no n.º 94 da Actualidade: ...Nós merecemos a honra de obter do professor Viale officiaes informações em aula de litteratura antiga.

Realmente, snr. conselheiro, este sujeito foi discipulo de v. exc.ª em historia antiga? No caso affirmativo, deu-lhe v. exc.ª a tal citada honra de o informar officialmente?

É de esperar que v. exc.ª me não responda; todavia ouso pedir-lhe que ao menos se digne indicar-me como devo interpretar o seu silencio; a não querer v. exc.ª antes, em carta confidencial ao seu discipulo, dizer-lhe em grego: χελευω πινειν ao mesmo tempo que eu cá lh'o digo a elle em portuguez.

Ponho á disposição de v. exc.ª a minha ignorancia com as informações officiaes de que sou digno, e a relevante bravura com que entro ao circo qual outro bestiarius (θηριομάχης), a arcar com esta besta-fera que sahiu da escola que v. exc.ª tão vantajosamente rege.

De v. exc.ª