(EPISODIO DAS PODRIDÕES MODERNAS)

Como quer que eu andasse jornadeando, ha cinco annos, por aldêas do Minho, intransitadas e menos conhecidas, encontrei um sahimento, que, ao principio, cuidei ser procissão.

Afóra a cleresia, que era numerosa, realçavam com as suas côres rubras, amarellas e roxas os balandraus de tres irmandades. Seguiam-se as alas dos visitantes da familia anojada mui bem postos e quasi serios com as suas casacas de gola enroscada e canhões arregaçados para evitarem os pingos de cêra. A espaços, palmilhava o chão juncado de rosmaninho, espadanas e hortensias, um anjo que atirava as pernas compassadamente ao rythmo da musica, bamboando as saias, as plumas e as azas relampejantes. Seriam seis os anjos, de varios tamanhos e significações imaginosas, parecendo-me todos tão pouco celestiaes, quanto alguns d'elles tinham escanhoado as queixadas para se darem o imberbe rubor de quem fingiam ser. Eram deveras funebres e apropriados ao cortejo. Na vanguarda do prestito ia a banda musical trovejando marchas funebres de metal e bombo; no remate negrejava o esquife, roçagando baeta-crepe, levado á mão por quatro sujeitos de casaca e catadura adequadas.

Apeei, e desviei-me a um recanto da estrada, em quanto perpassava o sahimento; depois, perguntei a um homem retardado da comitiva quem era o defunto.

--Era a snr.ª viscondessa--disse elle.

--Viscondessa de quê?--volvi eu.

--De quê?!

--Sim; pois ella havia de ser viscondessa de alguma cousa.

--Isso não sei, nem me consta. Acho que era só viscondessa.

Não prosegui na ociosa averiguação; mas, d'ahi a pequena distancia, encontrei uma casa grande com seu portal de ferro, e na cimalha da padieira esta legenda em letras bronzeadas: Viscondessa do Salgueiral.