--Agora, sim!... Estou vendo-o debaixo do alpendre do padre Lixa a scismar com a lingua de fóra. Meiga-giboia, sim, senhor; parece-me até que fui eu quem lhe poz a imaginosa alcunha, porque nenhum de vossês, os meus condiscipulos, tinha phantasia para tanto.
--Pois ahi tens o herdeiro da viscondessa... que não é.
--Que não é o quê?
--Viscondessa.
--Ora essa! Um lavrador disse-me que ella era viscondessa tout-court, viscondessa de nada. Vens tu, e confirmas o lavrador, dizendo-me que não era viscondessa a tal finada! Mas eu li o letreiro no portão de ferro...
--É verdade, o letreiro lá está. Depois de cêa, se o somno te não apertar, ouvirás a historia d'este titulo.
--Se tem historia, é um bom titulo; que eu sei de centenares de titulos sem historia. Cearemos de modo que o espirito se não comprometta na digestão.
*
* *
Depois de cêa, o abbade, acautelando as portas á curiosidade das irmãs que ainda eram moças e casquilhas, contou-me este conto:
--Havia em Braga um chapeleiro muito rico, pai de duas meninas. A sua mania era casal-as com fidalgos; e depressa concorreram alguns oppositores ás noivas. Um d'esses, que militava na qualidade de tenente de milicias, era João Ferreira d'Eça, dono da casa onde viste o brazão. O chapeleiro, que não dava a filha sem mandar examinar por pessoa competente os pergaminhos do pretendente, convenceu-se de que o alferes era primo em segundo grau dos condes de Cavalleiros. Deu-lhe, por tanto, a filha e sessenta mil cruzados.