Falla-se ahi em dous meninos.
Ai! um d'estes meninos era o snr. Freitas Barros, actual secretario da administração do concelho de Coimbra.
E o outro menino era... eu!
Direi alguma cousa nos pontos em que o correspondente do Porto foi omisso.
Eu vestia casaca preta de abas em triangulo isosceles com a gola em promontorio, convexa, redonda e algum tanto sebacea. Na lapela esfarpellada alvejava uma camelia, symbolisando tenção amorosa á mingoa da charpa dos Amadis e Lancelotes, meus heroicos antecessores. Os collarinhos de papel almasso embeiçavam com os arcos amarellos dos oculos. A gravata era britannicamente branca, e absorvia-me o queixo de baixo na circumspecta gravidade dos desembargadores d'aquelle tempo. Recordo-me das luvas que eram de lã verde com um antebraço que lhes dava uns longes de manoplas. Em uma das botas duvidosamente marialvas luzia o espigão de uma espora sem roseta. O chapéo de castor, derribado por gebadas ad hoc, desformára-se nas fórmas caprichosas de barretina de lanceiro. Se bem me lembro, o meu adversario Freitas Barros vestia o mesmo uniforme, tirante o chapéo que era de bicos, em arco, de alterosas badanas, um pouco desengonçadas pelo attrito de meio seculo.
E, n'este feitio, depois de presos, atravessamos a cidade, desde a Torre da Marca até á rua do Almada, bifurcados nos burros espavoridos pela grita do gentio que exaltava n'aquelle intervallo de imprevisto carnaval.
Claro é que a minha postura e a plastica do trajar eram bastantemenle ingratas aos effeitos oratorios, posto que a rhetorica não fosse de todo parvoa. Dei ao meu braço direito, durante o discurso, um movimento pendular que depois vi perfeitamente arremedado no parlamento pelo snr. Martens Ferrão. E, dado que, tanto nas posturas como nas expressões, eu mantivesse a seriedade compativel, o magistrado que se chamava fulano Mendanha, não sustentou a gravidade consentanea ao acto, porque me interrompia com espirros de riso assás funestos aos golfos da eloquencia de quem quer que seja.
Não obstante, a authoridade compôz sisudamente o aspeito n'este lanço do meu discurso: «Snr. administrador! O ridiculo, na questão sujeita, póde contribuir para defecar a humanidade de um crime que a lei não evita nem pune. O duello, ill.mo snr., só deixa de ser ridiculo quando ha uma victima, quando ha sangue e lagrimas; e, assim mesmo, ninguem sabe dizer qual é o honrado, se o que morre, se o que mata, etc., etc., etc.»
Lembra-me que me fiz forte com Voltaire, como se o tivesse lido. Eu não tinha ainda 19 annos; e, n'aquella idade, dou palavra de honra que era estudante sem compendios, e o mais ignorante que podia ser um rapaz que entranhadamente execrava livros, e amava o sol e tudo quanto elle cobria, exceptuados os livros e os sabios.
Finalmente, o jovialissimo Mendanha mandou-nos embora; e nós d'alli sahimos com a consciencia convicta de haver escripto um brilhante capitulo na ethologia nacional, e com o estomago palpitante de sorrisos para uma merenda condimentosa no Rainha da Praça Nova.