Os meus inimigos, que são todos os vilissimos protestantes, fizeram as maiores diligencias para me matar: não houve astucia, nem enredo, nem traição que não empregassem para conseguir este malevolo fim: é bem de presumir que um d'estes fosse o veneno.
A infanta e todos os usurpadores da casa de Bragança, o governo e todos os seus clientes, a maçonaria e todos os seus agentes nacionaes e estrangeiros, ora armavam contra mim o braço do cruel Mattos Lobo, ora forjavam ou fingiam revoluções e acclamações nocturnas para me surprehender no conflicto, ora lançavam sortes para me seguir de noite e para me matar nos arroios da cidade ou nas encruzilhadas: ora engajavam estrangeiros e carniceiros por grandes sommas para que me procurassem e matassem na propria casa, aonde eram recebidos pelas infames Caracas.
Um d'estes era um lanceiro, e carniceiro, que esteve na guerra do Porto, a quem deram o preço do regicidio, e o bilhete de passagem em um brigue para sahir para França logo que consummasse o attentado.
Todas estas traições e maquinações eram cumulativas, horrorosas, e tão desleaes e insidiosas, como as que se urdem ao innocente que não sabe ou não póde defender-se. Eu estava no caso da mais perfeita ignorancia porque nem sabia o que era: infelizmente a minha vida era n'este tempo mui sujeita á fragilidade e a quedas que eu não procurava, antes tentava e não sabia evitar.
Estes monstros da tyrannia do inferno pediam e repelliam a minha eleição; porque o seu fim unico exclusivo era a minha morte; só admittiam a meu favor algumas apparencias ou disfarces com que encobriam as suas tramas e horrores: eram seducções, tyrannias, convites para lugares de traição, venenos, e armas occultas. Se viam que eu vingava como advogado em Villa Real, pediam para eu ser eleito deputado só para me atraiçoarem em Lisboa; e logo se arrependiam, e punham todos os embaraços da sua infame escola e odiosa seita á minha eleição e elevação; se viam que eu não era morto em Lisboa desejavam que eu fosse para Coimbra aonde punham como ultima mira a cruz de meu martyrio e funeral.
Como podia livrar-me de tão infernal perseguição? Os monstros não consentiram mais na minha eleição e ainda me propozeram pelo circulo de Arganil, onde fui eleito deputado no anno de 1852, mas os infames logo se arrependeram, e cassaram ou annullaram a eleição na camara, sem me ouvir, e sem me mostrar o processo das suas infernaes tramoias.
Quem deixaria de eleger-me para todas as legislaturas depois de vêr e saber que o meu nome era singular e unico, e que a minha representação não tinha igual em todo o mundo e redondeza?
Quando concordaram na minha eleição para suffraganeo do patriarchado entregaram a minha vida ao maldito e infernal nuncio, e ao abjecto e tredo patriarcha e ás suas seitas e partidos para se desonerarem da tarefa que os infames julgaram e declararam superior ás suas forças.
Estes monstros esgotaram toda a traição, todas as maquinações e os seus enganos, e não conseguiram o que desejavam: o perfido e abominavel ministro do anti-papa chegou a convidar todas as seitas para o espectaculo do meu envenenamento, as quaes enviaram os seus deputados e representantes para assistir a esta scena de horror que se representou na presença da diplomacia cruenta das actuaes usurpações da vergonhosa Europa e da America por duas vezes.
Só Deus omnipotente podia isentar-me de tão imminentes catastrophes. O nosso fim actual é descrever a burrinha protestante e a sua bestial condescendencia e venalidade.