O Terremoto de Lisboa, romance historico, por M. Pinheiro Chagas. Lisboa. Livraria editora de Mattos Moreira & C.ª, 1874.—Haveria razão para não exigir livros primorosos de escriptor tão fecundo e variado em differentes ramos das letras; mas, no author d'este livro, manifesta-se a rara excepção que constitue o engenho distincto. A fertilidade não lesa o detido cuidado no esmeril da linguagem. Os raptos da imaginação não descuram a cadencia da linguagem, o torneio da phrase, o decoro e pompa d'este nosso formoso idioma que só desserve aos que o exercitam com insufficiente estudo. N'este romance do Terremoto de Lisboa, pautou o snr. Pinheiro Chagas com rigoroso lapis os delineamentos das figuras historicas. Diogo de Mendonça e Sebastião José de Carvalho avultam aqui na tela romantica fidelissimos aos originaes da historia. Todavia, se, por vezes, o louvor tece corôas ao valido de D. José I com demasiado colorido de flôres salpicadas do sangue de illustres e innocentes victimas, isso é um modo de ver pela lente da politica, em cuja apreciação eu não entro, nem me arrogo o jus de contestar ao excellente romancista a veridicidade dos seus conceitos. As notaveis bellezas d'este romance assentam na habilidade da contextura, no tino com que as peripecias convergem para o desenlace justificado pelo titulo. Pelo que é da excellencia secundaria em uma novella, o estylo, isso é já de sobra apreciado nos muitos, posto que rapidos, trabalhos de Pinheiro Chagas. A florescencia é sobria, os atavios não estofam a penuria da idéa, os ornatos frisam rigorosamente com a conveniencia dos lances. Denominamos «secundaria» a excellencia do estylo em romances, porque sabemos, de propria experiencia, que os livros d'esta especie, mais lapidados, e, no dizer antigo, mais penteados na phrase, são, por via de regra, os menormente bem-quistos da maioria de leitores que desadoram palavras que lhes não sejam da maior familiaridade. Tem, todavia, o snr. Pinheiro Chagas o raro condão de escrever para todos, e a todos, lidos e não lidos, deve o abalizado escriptor a sua grande popularidade.
FIM DO 10.º NUMERO