Tornou-se-me o nariz esqualido purpureo
Por causa das paixões e do ultra-romantismo.

Faz pena o diabo do homem!

E, para fecho de desgraça, quando está nas ultimas,

O seu nariz purpureo
É uma esponja de carne a distillar mercurio.

Por onde se vê que a poesia moderna tira grande partido do nariz, já cortando-o, já alongando-o, umas vezes enverrugando-o, outras vezes esponjando mercurio d'elle, consoante lhe convém.

Não é completamente novo isto.

Em Portugal houve sempre esta mania de fazer litteratura nas ventas das pessoas dotadas d'esse orgão com saliencias extraordinarias.

No fim do seculo XVII, galhardeavam grandemente os poetas n'esse genero. Eu, entre os meus papeis, tenho um poema consagrado a um nariz, em que não havia verrugas nem azougue; mas sim uma grandeza magestosa e limpa. Veja o leitor se acha graça a isto:

A UM NARIZ GRANDE
Tratava de encarecer-vos;
porém logo (ó caso estranho!)
vos achei, nariz, tamanho,
que não pude comprehender-vos.
Que sois nariz tão fatal,
em ser comprido, e ser grosso,
que n'um reconcavo vosso
se escondeu um arraial.
Alguem vos chama infinito;
mas eu, que em razão me fundo,
as quatro partes do mundo
sei que são vosso districto.
Pareceis cá baluarte
dos chinas, bem que o venceis,
e com Deus vos pareceis,
porque estaes em toda a parte.
E um velho da Saxonia
diz vos viu mui grande espaço
servir, nariz, de compasso
da torre de Babylonia.
Mas affirma quem se humana
mais nas vossas maravilhas,
que tendes as trinta milhas
da ponte do Guadiana.
Que sejaes, senhor nariz
tão comprido e tão fatal,
que já cá de Portugal
cheiraes na Arabia Feliz.
Que sois o farol do Egypto
que toma de mar a mar,
se se póde comparar
finito com infinito.
E jurou certo moderno
(não diga elle algum desmancho)
que podeis servir de gancho
que tire as almas do inferno.
E que, se nos horisontes,
nariz, vós nascereis d'antes,
escusaram os gigantes
de pôr montes sobre montes.
Bem podeis, senhor nariz,
estar onde mais quizerdes;
mas, se ao sol vos pozerdes,
fareis logo ser sol-criz.
A vós, nariz, o gran monte
do Parnaso se assemelha;
pareceis arco da velha
que toma todo o horisonte.
E dizem quatro juizes,
segundo a sentença diz,
que tiram de vós, nariz,
a massa dos mais narizes.
Inda que estar queiraes só,
vos verão, em que vos pez,
que tamanho Deus vos fez
como a escada de Jacob.
E assenta certo moderno,
no que acerta, quanto a mim,
que sois sem principio e fim,
e que sois, nariz, eterno.
Ao arraial do Maluco
daes n'uma venta estalagem;
e podereis dar passagem
de Lisboa a Pernambuco.
Para que el-rei se desvela?
Se el-rei quer estar seguro,
ponha-vos, nariz, por muro
entre este reino, e Castella.
A vós só, nariz, se deu
pena eterna, e gosto eterno;
que tendes posto no inferno
um pedaço, outro no céo.
Ha no mundo narigote,
ha nariz, e narigão,
houve nariz de Sansão,
e nariz de D. Quixote.
Sois nariz archi-potente,
porque só vós assombraes
do Occidente, onde estaes,
os narizes do Oriente.
D'onde, nariz, presumi
chamar-vos gran narigão;
porque sei que ha ahi gran Cão,
que ha gran turco, e gran Sophi.
Se não se póde alcançar
nunca a medida do mundo,
nem nunca ao mar se achou fundo,
vós, nariz, sois mundo e mar.
Parece, quando espirraes,
(cousa para o mundo nova!)
Eolo que sahe da cova
com todos os ventos mais.
Eras bom n'uma fronteira;
que d'essas ventas o vento
é pelouro mais violento,
que de bombarda, e roqueira.
Outros, encontrando a fé,
dizem atrevidamente
que em vós se salvou mais gente
que na arca de Noé.
E em fim sois, porque conclua,
nariz tão mal ensinado,
que vos viram cavalgado
então nos cornos da lua.
Do sol dizem que enfiava;
da lua, que então gemia;
e do céo, que estremecia
co'o peso que sustentava.
Sois mór que a serra da Estrella;
porque eu vi por uma venta
vossa, na maior tormenta,
passar um navio á vela.
Esse rosto deshumano
onde pôr-vos o céo quiz,
chama-se cento-nariz,
como o outro centimano.
E de quem n'elle vos pôz
saber me dera gran gosto,
se andaes vós, nariz, no rosto,
ou se o rosto anda em vós.
Bem que o rosto é cousa rara
de maneira que só diz
tal cara com tal nariz
e tal nariz com tal cara.
Da limpeza foreis centro,
se vós deixareis entrar
cem mil homens, a limpar
as furnas, que lá vão dentro.
Mas ser sujo não me espanto;
pois jámais vos assoastes,
nariz, porque não achastes,
linho que abrangesse a tanto.
Para a India uma nau ia,
eis que um peixe se levanta
no mar, de grandeza tanta,
que a nau á vela cobria.
Eram tudo paroxismos
na nau, tudo estremecer,
quando lhe mandam fazer
por um padre os exorcismos.
Mandou-lhe n'este comenos
o bom padre, que a nau deixe,
e o que criam que era peixe,
era o demo, quando menos.
Entrou-me no pensamento
mandar-vos exorcismar,
sómente por alcançar
se sois nariz, se portento.
Que nariz não pareceis;
e, pelo rosto em que estaes,
a nariz assemelhaes,
e no rosto não cabeis.
Salvo, nariz, se sois tal,
e de tão má condição,
que ides comer ao Japão,
e purgaes em Portugal.
Etc. etc.

Posto isto, em quanto o leitor boceja nos preliminares de um agradavel somno, apresso-me a dizer-lhe que não está no meu animo detrahir nem menoscabar a seita poetica, a hoste da Idéa Nova em que o snr. Guerra é o alferes da bandeira. Gosto do nariz de D. João; e, quanto ás verrugas biliosas e á distillação de licôr de Van-Swieten, prefiro estes narizes pôdres das pessoas afflictas aos narizes de cêra dos litteratos.