João Baptista Gomes, dez mezes antes de se arrancar não sei se ás alegrias, se ás amarguras da existencia, pedia esmola para os encarcerados, e deixava aos seus portuenses talvez os derradeiros sons da sua harpa.

Dizia assim:

Louvores á virtude aos céos aprazem:
Nas aras da verdade puro incenso
Respeitosa tribute a humanidade
A quem da humanidade os males pungem,
A quem aos males da indigencia acode;
Com piedosa mão, mão generosa,
Da macilenta face ao desgraçado
O pranto enxuga, que a penuria arranca.
Sensiveis cidadãos, porção mimosa,
D'alta prole de Luso esmalte, e gloria,
Meus hymnos relevai, que aos vates cumpre
Honrar a quem dá honra á especie humana:
Beneficas acções, que almas transportam,
Por desafogo d'alma applausos pedem.
Na sinuosa habitação do crime,
Nas pavorosas, lobregas masmorras,
Onde fome, e nudez (oh dôr!) outrora,
As miserandas victimas ralavam;
Onde o estridor horrisono dos ferros,
D'imprecações, de pragas, de blasphemias
Era, não sem razão, acompanhado;
Alli onde animados esqueletos
Bradavam pelo jus, que á vida tinham,
Em quanto justo oraculo de Themis
Castigo aos crimes seus não arbitrava;
E os descarnados braços, d'entre os ferros
Famintos estendendo as mãos escassas,
Com lamentosa voz, parco alimento,
Quasi desfallecendo em vão pediam;
Alli, onde impio throno a morte alçára,
Tem agora seu throno a humanidade.
Amavel, divinal beneficencia,
Dos céos emanação, innata ao homem,
Lei filha da razão, que a natureza
Indelevel gravou no peito humano!
Só tu fazes heroes, só tu distingues
Os entes racionaes das brutas feras.
Cobraste, ó natureza, os teus direitos,
Desaffrontada estás. Exulta, ó patria!
Na estancia destinada ao crime, á infamia,
Inconcusso padrão teus beneficios
Fabricado já tem á gloria tua.
Os carceres contempla, e goza o fructo
Das acções, que praticas generosa,
Em louvores trocadas as blasphemias;
Co'a justiça abraçada a humanidade;
Abundancia frugal alenta os tristes,
Que inerte esquecimento abandonára
Nas garras da penuria, e dos flagicios:
Como se não bastasse aos desgraçados
Do crime o peso, o peso dos remorsos,
Da justa punição a idéa horrivel!
Quem ha que delinquente ser não possa?
E ha de auxilio negar-se aos delinquentes?
Os culpados não deixam de ser homens:
E á compaixão dos homens tem direito,
Compaixão, não esteril, prestadia.
A bem da humanidade taes dictames
Leu em seu coração heroe prestante;
De honrosa instituição motor ditoso,
Com seu sopro accendeu piedoso incendio
Em corações dispostos á piedade:
Liberaes á porfia generosos,
Sobeja caridade exercem todos.
Oh dadiva do céo! alma sublime,
Que recto, imparcial punindo os crimes
Pranteias compassivo os criminosos,
E ao culpado infeliz auxilio prestas,
Aligeiras seu mal, a mão lhe estendes,
Que invergavel d'Astrea a vara empunha,
Illustre... Mas que faço? o teu preceito,
Tua nobre modestia me prohibe
Teu nome proferir porém debalde:
Mesmo entre ferros o profere o afflicto,
Que de lisonja vil não é suspeito;
Perenne gratidão aos astros manda
O nome teu, que impresso em nossos peitos,
Transmittido será de paes a filhos!...
Mais quizera dizer, dissera pouco
Por muito, e muito, que dizer podesse:
Custa ao vate conter d'alma os transportes:
Mas silencio m'impões, silencio guardo.


[AUTO DA FÉ... A RIR]

O meu benevolente mestre e amigo, o snr. Innocencio Francisco da Silva, alludindo ao que se escreveu no n.º 10 das Noites de insomnia, a respeito do infeliz e talentoso José Anastacio da Cunha, diz-me o seguinte: A proposito, occorreu-me offerecer-lhe o papel junto, copia de outro que possuo ha bons quarenta annos. É uma noticia assás circumstanciada e divertida do auto da fé, em que sahiram penitenciados o mallogrado professor da universidade e seus companheiros. Se acaso v. entender que a narrativa agradará a alguns leitores das NOITES, póde dar-lhe ahi as honras da publicidade, etc.

Segue o curioso papel que, a meu vêr, é a photographia das cousas e das pessoas d'aquelle tempo, avultando á primeira luz do painel o cardeal da Cunha, inquisidor geral:

Noticia presencial do auto da fé a que presidiu o cardeal da Cunha em 11 de outubro de 1778.

«Meu pai tinha grangeado, não sei como, a amizade, e era muito da obrigação d'esse cardeal inquisidor geral, que na vespera do auto da fé, em que sahiu José Anastacio com os outros seus companheiros, veio a nossa casa e recommendou a meu pai, que ao outro dia, para boa doutrina e exemplo, mandasse seu filho assistir a esse acto de religião: «venha o rapaz (disse o tonto); venha cedo; que almoçará commigo, e depois tambem lhe darei de jantar.» Assim m'o encommendou o meu velho, quando n'esse dia me recolhi a casa, e não tive eu mais remedio senão apresentar-me ao outro dia na casa triste, aonde cheguei a tempo de vêr levantar-se da cama o alarve do inquisidor, que enceroulou os seus calções largos, e esfregando os olhos, bocejando, e fazendo cruzes na bocca, me levou para a mesa do almoço, que nos foi servido de café com leite e as torradas competentes. D'ahi abalamos para a capella da inquisição, aonde foi a minha boa fortuna o ficar assentado junto a um frade de S. Domingos, homem com menos de meia idade, mas de juizo inteiro, segundo o mostrou no discreto e gracioso motejo, que fez de quanto se passou n'aquella santa e religiosa feira da ladra. Tivemos missa inteira, e depois tivemos sermão, que bem fôra o ter sido partido por todos os dias do anno, por o muito que nos enfadou com um sem numero de sandices o prégador. Quando as este vasava do sagrado almofariz, não escapavam ellas ao meu visinho, que para mim se voltava, dizendo admirado: «arre! e como é eloquente o prégador!» E tambem, quando ao lêr da sentença, os réos, segundo o chavão e formulario do santo officio, foram alcunhados de deistas, atheistas, herejes, scismaticos, etc., o bom do meu visinho, pondo os olhos no céo com grande compunção, dizia: «Jesus Maria! Que gente tão ruim!... Atheistas e deistas ao mesmo tempo!... E ainda com mais o trambolho de herejes e scismaticos!... Valha-nos Deus com tantos peccados!» Todavia, a gravidade e recolhimento discreto desamparou a esse bom frade, assim como a maior parte da companhia, quando se leu a sentença, havendo por intervallos uma assuada geral de gargalhadas, rompida por os fidalgos, que assistiam de familiares. Quem não havia rir? Entre os cargos, que se faziam aos réos, entrava o de que nos dias d'abstinencia deitavam postas de vacca em baldes d'agua, d'onde tiravam a carne com um gancho, e a chamavam pescada, que mandavam guisar para o jantar! Entre os mais graves capitulos era o que se fazia ao réo João Manoel d'Abreu, o qual, perguntado—qual tinha por mais violento, o fogo do inferno ou o do purgatorio? Respondeu: O do purgatorio. E instado por a razão de o julgar assim, tornou a responder: porque o do purgatorio, além de queimar as almas, tem a força de aguentar as panellas de tantos mil frades e clerigos, que d'ahi vivem. Sonora gargalhada, que retumbou por toda a capella, com grande escandalo dos padres tristes.

José Anastacio, com todos os mais penitenciados, tinham velas de cêra amarella nas mãos[22]; estavam todos com o semblante carregado e melancolico, senão o major de artilheria de Valença, que se estava sorrindo; e, acontecendo pôr os olhos nos d'um conhecido seu, logo lhe fez uma cortezia com o brandão de cêra, por o modo, que o faria com a espada, se estivesse mandando uma parada. Emfim, acabou-se a farça; sahiram d'ahi os penitenciados para os lugares de suas reclusões, e nós para o abundante jantar, que nos deu o cardeal. Quando assentados á mesa, voltou-se elle para mim, e começou a me admoestar por esta maneira: Então, snr. V... viu vm.ce a piedade e misericordia da santa inquisição? Veja como deu castigo brando a tamanhas culpas! Porém, isso foi por a primeira vez; que se tornarem a delinquir, não hão de ficar assim. A isto respondi eu—que me parecia deviam os penitenciados ser mais d'uma vez perdoados; porque, perguntando Pedro a seu divino Mestre, quantas vezes se havia perdoar ao peccador; se deveria ser até sete vezes, Christo lhe respondera: não só sete vezes, mas sete vezes setenta; pelo que (continuei eu) multiplique v. exc.ª sete por setenta, ou 70 por 7, e achará a conta de 490 vezes, que se deve perdoar ao peccador, e d'ahi se a inquisição quizer seguir a doutrina da Escriptura, ainda aos que foram agora penitenciados se deve 489 vezes o perdão. A este tempo estava um dominicano, frei José da Rocha, grande valido do cardeal, por traz d'elle, fazendo-me signaes para que não continuasse o discurso; e para esse frade, como para arbitro e qualificador, se voltou o cardeal: hui! oh frei José! Aquillo que diz este rapaz vem lá na Escriptura? Depois d'algum empacho, respondeu o frade: Isso lá vem por algum modo, como v. exc.ª sabe melhor do que eu; mas, para que é agora acarretar a Escriptura para o jantar? O que se agora ha mister é refeição corporal, e não espiritual. Ficou com a decisão um pouco turvado o cardeal, mas logo, dando maior pinote, poz termo á questão dizendo: Pois se isso vem lá na Escriptura, nós cá é outra cousa. E como isto disse, foi entrando pela sopa.»