Vejamos as scintillações de estylo de um enviado ordinario na embriagante atmosphera de Paris que o aureolava com as suas delicias. As cartas datadas em 1669 e 1670 são adereçadas ao regedor das justiças, D. Rodrigo de Menezes.
«...... Dir-lhe-hei a v. s.ª como passo ha quatro mezes. Jeronymo José da Costa me assistiu dous, mas porque a tardança dos provimentos o fazia desconfiar, não quiz valer-me d'elle, e pedi 1:000 francos ao conde de S. Comberg, dizendo-lhe que era para um emprego meu. Não me atrevi a escrever que achava este recurso, para que não désse causa a maior descuido. Já estão pagos estes dous credores; mas não estou livre de cuidar que recahirei no mesmo achaque. Creia v. s.ª que não sei como acerto a servir sua alteza[27] sempre entre os temores de que me ha de faltar o necessario para o servir no mez que vem, se me acaba o provimento. Verjus levou carta minha para o snr. conde da Torre. O que n'ella pedia era que sua alteza me mandasse pagar ou recolher, e confesso a v. s.ª que não posso servir com taes faltas. Se eu disser a v. s.ª o que me tem custado os portes de Madrid, Hollanda e Inglaterra ha v. s.ª de se admirar! Sua alteza, pela mercê que me faz, a qualquer carta minha manda logo acudir: a falta está da parte dos executores das suas ordens... etc.»
Se este periodo não deixa bem definida a situação brilhante do enviado ordinario, ha outro mais explicito:
«... Eu me acho em tal estado que pedi um dia d'estes dez dobrões emprestados. No ultimo de fevereiro se me acabaram as mezadas, e entro em quarto mez de empenho. Até a carne para comer me trazem fiada... Tire-me v. s.ª d'aqui ainda que seja á custa da liberdade.»
D'estas e outras cartas reveladoras de opulencia, de alegria, e patriotica vaidade no serviço de Portugal é que os biographos deprehenderam que o desembargador Duarte Ribeiro, enviado ordinario a Paris, alli fôra recebido com grandes honrarias (diz Costa e Silva) poucas vezes tributadas a ministros estrangeiros, e tantas e tamanhas que até fiavam d'elle a carne os magarefes parisienses.
E, como prova de que a sua abastança não era fineza, mas sim obrigação da patria que lh'a dava, acrescenta o biographo que Duarte Ribeiro, no longo prazo de nove annos que se demorou em França, no exercido d'esta missão importante, promoveu com todo o zelo e sagacidade de que era dotado os interesses e vantagens da nação que representava.
Da comparação da opulencia de Duarte Ribeiro com a pobreza dos diplomatas do nosso tempo, infere-se que elle comia vacca fiada porque era um inepto, ao passo que os seus successores no officio andam por lá saturados de trufas porque sabem manter perspicacissimamente o equilibrio internacional.
[27] D. Pedro, o regente, irmão de Affonso VI.